sábado, 27 de fevereiro de 2016

A minha irmã


Linda Stirling in the serial Zorro's Black Whip, 1944

Tive uma irmã que nasceu morta. É cru dizê-lo desta forma, mas foi assim que aconteceu, dois anos antes de eu nascer. Naquele tempo, evitava-se falar nestes assuntos. As palavras saíam abruptas, fugidias, despegadas de emoção para não fazerem naufragar a alma. Da minha irmã, não havia uma fotografia, uma história. Apenas a referência a uma vida que desacontecera. A revelação de que existira a possibilidade de ter uma irmã surpreendeu-me e deslumbrou-me. Eu, que tinha um irmão mais novo, comecei a desejar ter uma irmã mais velha. Quando comecei a sentir a sua falta, inventei-a. A minha irmã tinha cabelos claros, olhos cor de avelã e sardas como a minha mãe. Era sábia, valente e cúmplice. Tinha uma voz meiga e falava comigo com gestos bonitos. Usava uma máscara e uma capa negra como o Zorro e montava um cavalo negro, que também se chamava Tornado. Andava muito ocupada a salvar os mais fracos, mas arranjava sempre tempo para mim. Quando me visitava, trocávamos inconfidências, aventuras e cromos. A sua presença, invisível aos olhos dos outros, era-me reconfortante. Apaziguava-me os medos que borbulhavam debaixo da almofada e salvava-me dos sons invisíveis da noite. Às vezes, deixava-me usar o seu perfume. Com ela, os meus dias flutuavam em liberdade. Depois, cresci e a minha irmã saiu disfarçadamente da minha fantasia. Tirou a capa e a máscara. Desfez-se da espada e das botas de montar e foi juntar-se aos meus avós cuja morte eu, entretanto, aprendera a aceitar. A morte seca as gargantas. Mas quem conta uma história, conta um mundo que o habita. Um mundo povoado de vivos e mortos, raízes que nos prendem à vida. É esse o mundo que sentimos. O único que conhecemos. Um mundo que se divide em duas metades: uma, que se vai desmoronando, perdendo bocados, esvanecendo no nevoeiro do tempo e, outra, onde recolhemos os despojos, criando uma nova ordem com as cores com que pintamos a imaginação e a memória. A vida é um compromisso entre estas duas metades. E é nesse compromisso que reside a arte da sobrevivência. Foi isto que a minha irmã me ensinou.