terça-feira, 31 de maio de 2016

A vida tal como ela não é


Sally Mann, Fishing on the island powley, 1989


Passeando airosamente pela Internet, deparo-me com rostos bonitos e corpos esculturais em aparatosa comunhão com a vida. Homens e mulheres, com trajes que julgo pertencer ao último grito da moda, arregaçam sorrisos e esboçam poses para a fotografia. As crianças, numa profusão de tules, folhos e laços, sorriem, bem instruídas, complementando o cenário idílico. Aqui e ali, pululam famílias que parecem saídas de uma capa de revista. E eu pasmo com tanta imaculada perfeição.
Também eu tenho a minha coleção de fotografias solenes, onde ostento vestidos de folhos e laços a prender-me os cabelos que caem em cachos, tiradas por ocasião de festas, aniversários, casamentos e batizados. Nessas fotografias, que eu retirava sub-repticiamente do álbum e escondia no fundo da gaveta da minha escrevaninha, não escondo o desconforto que aquelas roupas de cerimónia me provocavam. Mas na maioria das fotos que guardo comigo, apareço de joelhos arranhados, saias acanhadas, fatos de banho desbotados, sapatos esfolados, cabelo desgrenhado e olhar envergonhado. E embora estes registos fotográficos constituam um verdadeiro desastre para os padrões estéticos de hoje, a verdade é que me revejo na maria-rapaz que fui em tempos. E são todos esses indícios, ou quiçá “imperfeições”, que me ajudam a reconstruir os doces dias da infância: a minha expressão amuada no dia em que os primos foram à praia sem mim, o rasgão na bainha das calças que ficaram presas na corrente da bicicleta, os olhos cerrados depois de uma briga com o meu irmão, as duas nódoas de gordura na camisola quando fiz o primeiro bolo com a mãe, o ar entediado nos passeios de domingo, o olhar triste na semana em que a minha amiga morreu. Noutras, o fotógrafo não conseguiu “evitar” uma boca aberta, uns olhos fechados, uma língua de fora, uns ombros descaídos, uns pés para dentro, um cão deitado de barriga para cima, expondo descaradamente as partes pudibundas. Aparentemente, na época, estávamos a anos-luz da perfeição.
Hoje, tenho a sensação que quanto menos humana for mostrada a nossa natureza, mais apreciada ela é. E é pena, porque é a estilização da vida que nos afasta da sua essência. A felicidade nem sempre reside na perfeição. E a felicidade é um instante, um retalho que vamos cosendo na malha dos dias e que nenhuma câmara consegue captar por mais extraordinário que seja o fotógrafo. Porque a verdade não está na moldura. E não há nenhuma moldura que salve uma fotografia que não tem autenticidade. 

(Texto reeditado)