sexta-feira, 24 de junho de 2016

A minha avó



Nos verões que passava em casa da minha avó acontecia portar-me mal. É certo que continuo a fazê-lo, mas isso é assunto para um outro post. Mas dizia eu que, por altura dos meus onze anos, me comecei a portar verdadeiramente mal. O facto de desfrutar de mais liberdade e de não estar sujeita a uma vigilância tão apertada, dava-me uma vontade inexplicável de quebrar as regras. A minha vida que, nos restantes meses do ano, era ordenada e previsível, pautada por horários escolares e regras domésticas, transformava-se num saco virado ao contrário. Na casa da minha avó, não havia fardas escolares, trabalhos de casa e outras obrigações penosas. Havia uma porta sempre aberta, que só se fechava à noite, e um vasto mundo para descobrir. Logo pela manhã, enfiava um vestido à pressa e, ainda a enfileirar o dedo grande do pé nas havaianas, saía de casa, ansiosa por abraçar aquela liberdade inusitada. Uma liberdade que ia até onde as minhas pernas me levavam. E acreditem, eu tinha pernas longas para a idade, capazes de palmilhar muito chão. Quando regressava a casa ao fim da manhã, de cabelo desgrenhado, vestido desalinhado, mãos sujas e joelhos esfolados, já a família, aprumada, almoçava. Assim que entrava na casa de jantar, um silêncio côncavo abatia-se sobre a mesa. Sentindo a impaciência a rodopiar por cima da cabeça do meu pai, balbuciava um par de desculpas esfarrapadas, mas as palavras soavam fracas e pouco convincentes, até aos meus próprios ouvidos. A minha avó, cordata, apressava-se a passar-me as travessas para que me servisse enquanto comentava as últimas peripécias da prima Zulmirinha, que era muito estimada por todos. Os rostos começavam, então, a desfranzir-se e o ambiente aligeirava-se. Só eu, consciente do castigo que me esperava e que me impediria de sair de casa durante toda a tarde, revirava a comida no prato, encolhida e sem apetite. Mal obtinha autorização para sair da mesa, fechava-me na sala de estar, munida do meu gravador portátil e de um livro, com uma raiva muda a queimar-me a garganta. Equilibrando o livro nos joelhos, lia as peripécias que eu julgava estarem-me destinadas. Eu, heroína da minha própria vida, não fora feita para passar as tardes sozinha, encurralada numa sala escura, tendo como única companhia os olhares austeros dos antepassados que, do cimo dos retratos de parede, pareciam absorvidos em recriminar os meus sucessivos atrasos para o almoço. Por vezes, enquanto a luz escorria, longínqua, pela tarde a fora, eu perdia-me na imagem refletida no espelho do móvel que me devolvia uma pessoa que não era eu, uma pré-adolescente de braços e pernas bronzeados, que tinham crescido depressa demais. Mas a minha avó salvava-me sempre. Num tom doce, chamava-me e pedia-me que lhe regasse as flores, untasse a forma de um bolo, recolhesse a roupa estendida ao sol, apanhasse uns figos para o jantar. Era assim que ela me arrancava o espinho do coração. Eu deixava-me escorregar pelas tarefas, tentando executá-las o melhor que sabia. Por fim, convidava-me a sentar-me junto dela, ao relento, vendo a tarde a partir de mansinho. O seu rosto de rugas prateadas olhava-me com bondade e, na sua voz calma, começava a relembrar-me, assim do nada, coisas que eu fizera bem. Quando o meu irmão fora picado por um peixe-aranha e eu o levara ao colo pelo areal até ao posto de socorros, a tarde que passara sem brincar a ajudar o avô a colocar as redes mosquiteiras nas janelas, as vezes que fazia a minha mãe rir, o gatinho que fora rejeitado pela mãe e que eu salvara... Eram episódios avulsos que me amoleciam o coração e me faziam acreditar que eu era bem melhor do que pensava. Eu confiava nas suas palavras, nas que me dizia e nas que guardava para os dias seguintes. E tivemos muitos dias assim. Às vezes, a minha avó punha a mão no meu pescoço e aconchegava-me a pele. Mas era a sua voz que me envolvia como um abraço e me reconciliava com o mundo. 


[Sinto tantas saudades do calor das suas palavras.]


quarta-feira, 22 de junho de 2016

A generosidade




A R. explica que não é muito de falas. Do que ela gosta mesmo é de se sentar em silêncio ao lado dos velhinhos e de ali ficar de mãos dadas, sem nada dizer. Gosta de sentir a progressiva acalmia das respirações, a cadência regular dos corações que dormitam e descontraem, porque se sentem afagados, aceites, abraçados. Diz-me que as palavras podem ser escorregadias, turvas e superficiais e que é o contacto físico que melhor compreende a necessidade de certos silêncios. Uma vez, numa outra instituição onde fez voluntariado, um velho fez-lhe um pedido invulgar. Abordou-a com uma voz ansiosa, uma voz especial que pedia uma coisa proibida. Com duas pequenas fogueiras a arder no lugar dos olhos, confessou-lhe que não gostaria de morrer sem voltar a tocar nos seios de uma mulher. Pedia desculpa pelo atrevimento, mas pressentia que ela tinha bom coração e que compreenderia a sua situação. Se lhe pudesse conceder esse desejo…
A princípio, a R. quase que ficou indignada com aquele pedido, mas logo se recompôs, comovida com a fragilidade daquele corpo envelhecido, preso a uma cadeira de rodas. Não querendo sobrecarregá-lo com o peso de mais um desgosto, anuiu, disposta a satisfazer aquele que podia ser o último desejo da sua vida. Numa manhã em que se encontravam abrigados de olhares indiscretos, ela piscou-lhe o olho e, abeirando-se dele, fingiu ajeitar a manta que lhe cobria as pernas. Compreendendo o sinal, o velho estendeu a mão engelhada que era só ossos, com pregas de pele manchada. Não havia nada de belo nela. Nada que explicasse por que razão ela acabou por se sentir feliz por ser tocada. Fora um roçar que a aconchegara por dentro. Um toque leve, sedoso, como a brisa provocada pelo bater de asas de um pássaro num fim de tarde de verão. Inclinando o corpo doente para a frente, ele deslizara delicadamente as costas da mão pela curva macia do seu seio esquerdo. Ela mal o sentira. Mas, como se assistisse ao milagre súbito de um homem dado como morto a abrir os olhos, sentiu-lhe as dores do corpo, os tormentos de alma, a alegria momentânea a pulsar-lhe no coração vermelho, a bater desordenadamente perante aquela fragrância de juventude em flor. Por isso, não, nunca se arrependeu daquilo. Se voltasse atrás, faria o mesmo outra vez. Transporia o limiar proibido para trazer uma felicidade breve a uma vida à beira do fim. Nenhuma distância entre seres humanos deve ser demasiado vasta para que não possa ser atravessada, afirma, com alegria. Agarro-me ao sorriso que há na sua voz e penso que talvez a verdadeira generosidade seja isso. Um voto de confiança que se oferece a uma pessoa sem nos preocuparmos com o que ela vai fazer com ele.