sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Construções



Descobri uma fotografia minha esquecida no fundo de uma carteira. Recortada, com o verso ainda áspero de resíduos de cola, fazia prova de se ter descolado de um cartão de identificação. Já não me lembro de qual. Quantas identificações já tive? E quantas já esqueci? Há capítulos da nossa vida que se fecham em branco à espera que surja uma foto, um odor, um bilhete esquecido numa gaveta para que enchamos algumas páginas com as palavras que lhes dão memória. Na foto, ostento um sorriso primaveril e a consciência mal disfarçada de arrastar algumas atrações e admirações. Foi pouco depois que morri. Já morri algumas vezes, mas aquela foi a maior de todas. Foi um dos maiores rasgões que me fizeram no coração. Doeu tanto que até os planetas pararam. Não me lembro de quanto tempo durou, mas sei que foi tempo demais.

Hoje, o que mais me fascina na foto e naquele momento em que trazia a boca a rir, é a minha profunda ignorância do que sucederia a seguir. Também nos filmes é essa a cena que mais me prende: o derradeiro instante de normalidade antes de os acontecimentos se precipitarem, o doce equilíbrio precário antes da estocada da vida. Depois de ter escrito tanto sobre esse Depois, insuportavelmente dorido, foi o Antes, que parecia ingenuamente simples, que formou uma espiral que se ergueu na noite. Levei muito tempo a conseguir escrever sobre ele. O caminho do regresso é sempre duas vezes maior. E foi surpreendente o que descobri. Ainda que nada disto tenha grande importância, compreendi que, se não tivesse encontrado aquela fotografia, a minha memória seria agora uma coisa diferente. E eu também.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Paganini



Já lá vão os tempos em que eu atravessava semanalmente o Jardim da Estrela, com o estojo do violino a tiracolo, em direção à Fundação Musical dos Amigos das Crianças. Sim, meus amigos, esta vossa dedicada escriba teve aulas de violino, para desespero do gentil e benevolente virtuoso que detinha a árdua e difícil tarefa de ensinar. Não havendo mais nada a acrescentar a este respeito, e já que a última frase descreve sucintamente a minha breve e malsucedida carreira como violinista, passemos então ao assunto que me traz aqui.

Enquanto aguardava a minha vez, porque, com exceção do coro e do solfejo, as aulas individuais de instrumento eram organizadas por hora de chegada, sentava-me na cozinha que servia de sala de espera, de sala de convívio e de passagem para a casa de banho. Era uma divisão abafada, muito concorrida, onde todos entravam e saíam, apressados e distraídos.
Todas as semanas, um rapaz da minha idade tocava violino a um canto, alheio ao bater constante da porta, às falas sobrepostas e aos passos que ecoavam ruidosamente no soalho encerado. Tocava horas a fio, sem dar conta, de frente para as notas minúsculas da pauta que, de tão seguidas, quase que imitavam escalas. No canto oposto da divisão, eu gostava de o observar, às escondidas, sempre pronta a desviar o olhar caso o dele se cruzasse com o meu. Tinha uma boca expressiva e olhos azuis, carregados de paixão. O rosto era bonito e delicado, emoldurado por claras e longas mechas de cabelo em desalinho.
A simplicidade com que se esquecia de si e se entregava à música provocava em mim uma comoção inexplicável. Na altura, não me cansava de admirar a forma como o movimento do seu corpo conferia volume à liquidez das notas. A mão esquerda deslizava, veloz, pelo braço do violino e o arco, que parecia uma extensão do seu braço direito, voava em todas as direções. Compassadamente, o tronco oscilava para a frente e para trás, como que vogando em alto-mar. Ver e ouvi-lo eram duas coisas indissociáveis. Era como se toda a beleza do universo palpitasse naquele corpo. Em segredo, apelidava-o de Paganini. Por vezes, deixava de o ouvir e passava a escutar outras coisas, como se dentro de mim algo tocasse também. Eram sonhos transparentes, sentimentos que se ligavam às notas e começavam a existir por si. Quando o vinham chamar para a aula, ele encostava o violino ao corpo, abraçando-o, e saía sem olhar para ninguém. Eu via-o desaparecer atrás da porta, sabendo que a sua música, que eu guardava numa pauta só minha, continuaria a tocar-me nos restantes dias da semana.
Nunca revelei a ninguém o significado desses momentos. E ele nunca desconfiou de nada. Hoje sei que foi ele o meu verdadeiro professor, aquele que me fez amar a música da forma como a amo agora, como a cura para uma ferida jamais curada. Um dia, deixou de aparecer. Quando ganhei coragem e perguntei por ele, disseram-me que já não viria mais, que fora admitido no Conservatório. Naqueles tempos, como dizia o poeta*, já ninguém morria de amor. Mas eu andei lá perto.

* Vasco Graça Moura / blues da morte de amor



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ter tudo para ser feliz



Caminhamos à beira-mar, ouvindo as ondas a desfazerem-se em notas encaracoladas. Cheiram a algas e a pôr-do-sol. Começamos a falar de felicidade. Ela diz-me que tem tudo para ser feliz. É certo que a felicidade é infinita na sua multiplicidade de formas, mas não sei se a felicidade é uma coisa que se possa ter. Naquele preciso instante, para mim, felicidade é apenas uma coisa que se encapela e vaza aos meus pés. É uma coisa que confere às minhas pernas a cor das ondas.
Talvez felicidade seja mais uma perceção, uma maneira de ser. Só isso explica a razão por que algumas pessoas se consideram felizes, apesar dos embates violentos que sofrem ou sofreram. É claro que só saberemos reconhecer o que é bom se tivermos vivido o mau. Doce e salgado são os sabores que definem a felicidade, já dizia a minha avó. E se há pessoas que conferem uma dignidade e um sentido próprios ao que viveram, também é verdade que há outras que se tornam amargas, ressentidas e irremediavelmente zangadas com a vida.
Por cima das nossas cabeças, aos gritos, as gaivotas descrevem círculos. E eu penso que haverá sempre quem as olhe como um bando de aves histéricas e tontas. Mas haverá também quem reconheça nelas os legítimos descendentes de Fernão Capelo Gaivota: um símbolo de liberdade que se inscreve na vontade de romper fronteiras. 
Talvez ninguém consiga ver o que não cresceu já dentro de si...