terça-feira, 3 de janeiro de 2017

As cores de dentro



O que é essencial escapa aos olhos. Se não for sentido por dentro, não há cor, por mais bela ou delicada que seja, que nos sirva de redenção. As cores com que vemos o mundo têm de ser primeiro preparadas e misturadas por dentro. Ninguém consegue olhar com prazer um arco-íris se não tiver antes pintado um dentro de si. Somos feitos de sangue e de células nervosas. Somos falíveis e inacabados. Apesar de todos os dissabores e desilusões que sofri, e fiz sofrer, gostava de continuar a contar com o melhor dos outros e de mim. Este é um ideal que gostaria de acalentar até ao fim dos meus dias. Talvez esta seja a única forma de preservar a alegria. Porque, sem inocência, não há alegria.
Um dia, almoçávamos com os meus pais, quando o meu filho perguntou subitamente, Avô, que cor veem os cegos? Eu, que sempre o quisera saber, mas que, por pudor, nunca me atrevi a perguntar, sustive a respiração e aguardei a reação do meu pai. Na verdade, sempre me perguntei se o que o meu pai via era um nevoeiro espesso, como uma cortina de gaze, palpitantes e trémulos pontos de luz, como quando fechamos os olhos, ou uma escuridão completa de luzes apagadas. O meu filho, que era ainda muito pequeno, achou que aquela era a pergunta mais natural do mundo. E o avô também assim o entendeu. Sorrindo, o meu pai respondeu que nem todos os cegos viam a mesma coisa, que alguns viam luzes coloridas, enquanto outros viam tudo negro. Esse era o seu caso. Para ele, era como se fosse sempre de noite. O meu filho, que tinha medo do escuro e que, na altura, dormia com uma luz de presença sempre acesa, replicou que isso era muito assustador. O avô apressou-se a explicar que não era assustador, porque continuava a ver com as mãos, com os ouvidos e com o coração. E que ver com o coração era, na verdade, muito importante, porque era este que dava cor ao mundo.
Naquele dia, percebi que o meu pai vê uma escuridão que brilha. No fundo, já o sabia. O meu pai é um ponto de luz para todos nós. É ele que nos ensina que há sempre uma alegria por descobrir e que, para ver uma borboleta a sair da sua crisálida, é preciso confiar nas cores das suas asas. Há pessoas que tiram a cor ao mundo. Mas os olhos do meu pai, que já não veem, mas ainda choram, sabem colorir o mundo com as cores de dentro.


[Vejam este vídeo. Tenho a certeza de que vão gostar.]
 



18 comentários:

  1. Miss Smile, que beleza de texto e de vídeo.
    Sem dúvida que há pessoas que nos dão cor e sem dúvida que as cores que conhecemos por dentro são as que de futuro nos ajudarão a pintar melhores momentos.
    um beijinho

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    1. Obrigada, Laura. Da tua varanda também se veem cores bonitas :)

      Um beijinho

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  2. obrigada, Miss, muito obrigada por este texto.
    :)

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    1. E eu agradeço o teu texto de ontem, lavado de fresco, pelas últimas chuvas :)

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  3. Nada que eu possa dizer corresponderá, na verdade, à sensação que este texto me provocou. Infelizmente, sei que há pessoas que tiram cor ao mundo...
    Obrigada, Miss Smile.

    Um beijinho com carinho.

    PS- Gostei muito do vídeo, sim.

    :)

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    1. Não podemos deixar que nos roubem as cores. Todos os dias, é-nos dada uma nova oportunidade de resgatá-las. Sem elas, nem o mais belo lugar panorâmico se salva. As cores mais bonitas não são só as da primavera, mas também aquelas que se misturam com lágrimas. As cores verdadeiras nada omitem, mas a tudo concedem a importância certa.

      Um beijinho, Janita :)

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  4. Como é bom ver com o coração!
    Terno, este texto. Muito.

    Beijo, querida Miss Smile :)

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    1. Por outro lado, viver próximo do coração é uma tarefa arriscada. É preciso aceitar a nossa vulnerabilidade, o que, por vezes, provoca derrocadas, dilúvios e outros fenómenos que abalam a frequência cardíaca ;)
      É um caminho que se escolhe ou que se aprende a escolher.

      Um beijinho, querida Maria :)

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  5. Textos como este têm o poder de colorir a vida. O vídeo também é um mimo. :)

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    1. E cada um poderá fazê-lo à sua maneira. Só precisa de afiar primeiro os lápis de cor :)

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  6. Que texto maravilhoso e que vídeo tão ternurento e comovente.
    A sensibilidade que transmite nos seus posts é inigualável.
    Beijinhos

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    1. Obrigada, Pedro. Às vezes, nem precisamos de muitas cores. Basta saber misturá-las na dose certa, como os pensamentos :)

      Um beijinho

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  7. Maravilhoso, querida amiga.
    Beijinhos.
    ~~~

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    1. Muito obrigada, querida Majo, por me ler com o coração.

      Um beijinho

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  8. Há quem escreva com o coração dedilhando, à luz ou na escuridão, as cores todas. Lê-las dá cor às cores do arco-íris. Que texto lindo, Miss. :)

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    1. Muito obrigada. Não é fácil, mas tentar converter a dor em beleza, construindo um sentido a partir dela é um caminho possível. Para conseguir dar cor às cores do arco-íris é preciso aceitar o que nos magoa, integrar o que nos faz sofrer, sem amargura. A vida é o que é, mas o que a torna especial é a nossa capacidade de torná-la única. E as cores existem para que cada pessoa encontre a sua.

      Um dia feliz, Olvido :)

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