sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O amor sem idade



Esta manhã, quando entrava no café, esbarrei em dois olhinhos muito azuis que me fitavam, expectantes. Mas rapidamente se desinteressaram de mim, voltando a colar-se à porta. A dona do bonito par de olhos era uma senhora de respeitável idade, muito aprumada e elegante. Sempre a sorrir, segurava na mão direita uma chávena que levava à boca com parcimónia. O cabelo prateado, uma verdadeira obra arquitetónica, estava impecavelmente penteado, enfunado e vaporizado de laca. O rosto era pálido e delicado, animado por uma boca amável, pintada de vermelho. O café estava apinhado de pessoas e do rumor das suas conversas. Ocupei a única mesa que se encontrava vaga e que ficava de frente para a sua. Não tirava os olhos da porta, apenas interrompendo a vigília para, com a outra mão, compor o lenço floreado que trazia à volta do pescoço ou lançar uma breve olhadela ao relógio de pulso. Os gestos algo inquietos indiciavam que esperava alguém. Certamente alguém muito especial, pensei, sorrindo para dentro. Quando um senhor alto e grisalho se dirigiu a passos largos para a sua mesa, a boca abriu-se-lhe num sorriso ainda maior, como um sol vermelho-vivo a nascer. Ele tinha o bom ar de quem tem gosto pela vida e uma voz de rádio. Como vai, minha querida? Ela olhou-o, enlevada, enquanto uma nuvem de seda escarlate lhe subia pelo rosto. O empregado veio receber o meu pedido e, quando voltei a olhar, já o senhor estava debruçado sobre a mesa, com o rosto quase encostado ao dela. Não sei o que lhe dizia, mas nos olhos dela, agora mais claros que dois relâmpagos, eu lia o desejo de querer ser feliz. Pouco depois, levantaram-se, ele colocando o braço por cima dos ombros dela com uma certa falta de jeito, como se ainda não estivesse habituado a tanta sorte. Cúmplices, leves e esperançados, saíram para a rua, deixando sobre a mesa uma marca de batom vermelho a sorrir numa chávena.


29 comentários:

  1. Que cena tão bonita, Miss Smile. Adoro histórias de amor.

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  2. O amor é lindo e não tem idades...hajam almas que o saibam viver verdadeiramente sem plásticos!

    boa tarde Miss

    -___-

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    1. Talvez nunca se saiba verdadeiramente. O amor é uma constante aprendizagem.

      Bom dia, Moonchild

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  3. que bonito, Miss Smile.
    adoro ler o amor assim nestas pequenas histórias.

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    1. E esta história parece ter um início auspicioso, Laura.

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  4. queria tanto ter a palavra certa para aclamar este encontro e a sua descrição.fico-me com os olhos pregados no braço por cima do ombro.
    bom fim de semana, Miss Smile.

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    1. O braço (algo desajeitado) por cima do ombro foi tão bonito de se ver.

      Uma boa semana, Mia

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  5. Ah, que história encantadora, querida Miss Smile.
    Sabe que, enquanto a li, estive sempre com um sorriso nos lábios e, quiçá, no olhar? :) Ao terminar, então, toda eu era sorrisos...porque seria?

    Beijinhos, votos de um excelente fim-de-semana. :)

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    1. Então estava como eu, querida Janita, a sorrir. Mas por dentro, claro, para disfarçar :)

      Um beijinho e uma boa semana

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  6. Uma mulher apaixonada reconhece-se em qualquer sítio ou quanto tempo tenha a sua pele, a ansiedade do encontro, a urgência contida dos gestos, o olhar que procura o seu poiso... Os ombros que esperam pelo braço donde espera tudo. Que bom que seja assim :) espero que seja assim.
    Boa noite, Miss

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    1. Bonita descrição, a sua.
      É bom que seja assim e eu também espero que seja assim :)

      Um bom dia, Olvido

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  7. post sobre o amor estão em vias de extinção...

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    1. Manel, se o amor está em extinção, então, é preciso escrever ainda mais sobre ele...

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  8. Que bom! Uma história romântica.
    O amor prega-nos cada surpresa...
    bjs

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    1. Aqui, foi mesmo no café da esquina...

      Beijinhos, Papoila

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  9. Acho tão bonito um amor tardio. Pelos vistos ainda os há. Beijos Miss S

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    1. Às vezes, é como o vinho do Porto, quanto mais tardio, melhor...

      Um beijinho, GM

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  10. Uma história romanesca tão agradável!
    Afinal, é o sonho de muitos idosos que vivem em solidão,
    escrito com delicadeza, arte e perfeição.
    Beijinhos gratos pela leitura deliciosa.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Muito obrigada, Majo.
      O amor faz parte da vida. E podemos sonhá-lo em todas as idades.

      Um beijinho

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  11. Não há idade para amar.
    A descrição da personagem feminina trouxe-me à memória uma grande Senhora que tive o prazer de conhecer.
    Beijinhos, boa semana

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    1. Pois não, o amor não conhece idades.
      E ainda bem que esta descrição lhe trouxe uma agradável recordação.

      Um beijinho e uma boa semana

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  12. Que lindo, amiga! Os meus pais, ele de 88 e ela de 86 ainda estão juntos, embora ele, por vezes não saiba quem a minha mãe é; mas sabe ela quem ele é e ali fica sempre junto do companheiro de uma vida, evitando sair com pena de o deixar em casa. No entanto, se um deles ficasse só adoraria que encontrasse um novo amor ; conheço um caso ( mas há muitos ) em que o pai de um amigo meu ficou viúvo; resolveu levar para casa uma companheira, pois entia-se muito só, dado que os filhos , casados, viviam noutras cidades. Pois os filhos não gostaram nada da atitude dele e isso deixou-me perplexa. O senhor ainda viveu muito tempo e não sei como ficaram divididos os poucos bens que ele tinha; sei que o que preocupava os filhos eram precisamente esses miseros tostões que ele tinha. Mas eu me pergunto: estavam eles dispostos a levarem o pai para suas casas e tratar dele? Não foi muito melhor ele ter tido quem cuidasse dele e quem lhe tivesse feito companhia? Não estariam assim os filhos mais despreocupados? Pois...pelos vistos isso não os afligia muito. Há coisas que eu não entendo. Palmas para essa senhora que teve a coragem de aceitar um novo amor sem se importar com o julgamento dos outros. Quando se trata de uma mulher o preconceito é maior ainda. Belo texto, amiga, como sempre! Muito obrigada, pois é motivo para uma boa reflexao. Beijinhos
    Emilia

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    1. O seu comentário é que é muito bonito, querida Emília. E que ternurenta é a história dos seus pais, apesar da presença sombria da doença e do envelhecimento. É muito bonito ver duas pessoas a envelhecerem juntas, cuidando e velando uma pela outra. Mas numa vida cabem mais amores e todos os recomeços possíveis. No entanto, é verdade que a sociedade continua a ver as pessoas de idade como seres andróginos, sem vida sexual e amorosa. Esta senhora despertou a minha atenção pelo brilhozinho nos olhos, os lábios pintados de vermelho, o sorriso constante. Era um ponto de luz naquele café apinhado de gente. Estava tão bonita! Até lhe “perdoei” a marca de batom que deixou na chávena :)

      Um beijinho, querida Emília

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  13. Amores tardios conseguem encantar-nos ainda mais!
    Tão ternurento e belo, este texto!

    Beijos, querida Miss Smile :)

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    1. Sem dúvida. Os amores tardios têm a capacidade de nos enternecer. Mas quem o vive, sente-se sempre um jovem!

      Um beijinho, querida Maria :)

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