quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O grito



Entrou na clínica agarrada ao braço da filha. Corcovada pelos anos, o queixo colado ao peito, dava passos pequeninos e bruscos, semelhantes a pequenos solavancos. Por pouco não tropeçava nos próprios pés, já esquecida de acertar o passo com o mundo. Os olhos baixos pareciam fixar a ponta do cachecol, que lhe escorregava do pescoço, e quase tocava o chão. Trazia vestido um casaco demasiado comprido, que lhe dançava no corpo e que, provavelmente, não a resguardava do frio agudo que sentia por dentro. O curto trajeto que fez até ao gabinete, onde seria feita a recolha de sangue, sugou-lhe as forças. Deteve-se junto à porta por breves instantes e entrou na divisão, sempre conduzida pela filha.
Mais tarde, ouviu-se um grito lancinante, quase animalesco. Depois novo grito. Outra vez. Cada vez mais alto. Gritava como se algo maior do que a fina dor provocada pela picada da agulha irrompesse à superfície, vívido e dolorosamente ardente. Na sala de espera, os olhares despegaram-se das páginas das revistas e dos ecrãs dos telemóveis e ergueram-se, tensos, sem linha de horizonte. Por fim, fez-se silêncio. Um silêncio mais profundo do que tudo, intensificado pelos gritos que continuaram a balouçar no ar, latejando-nos nos ouvidos. Às vezes, ouvir é um segredo. E um grito é sempre mais do que um grito.
Quando saiu do gabinete, vinha a tremer, como um pássaro aterrorizado com a tempestade. Perdida em si mesma, assustada com o mundo que há muito deixara de compreender, deixou-se guiar para a saída, nos seus passinhos sacudidos e sem coordenadas. Disfarçando o embaraço com um sorriso, a filha pediu delicadamente desculpas pelo incómodo e agradeceu a compreensão de todos os presentes. De braço dado, tão perto e tão longe uma a outra, à distância intransponível da doença que evapora a vida por dentro, saíram para a rua, desaparecendo no nevoeiro que cobria a manhã com o seu manto espesso e surdo.

[Quando chegou a minha vez e a agulha da seringa me perfurou a pele, apeteceu-me também gritar. Não o fiz. Mas quando cheguei a casa, tive de escrever este texto.]


28 comentários:

  1. ...e fez muito bem, escrever o texto - lindo de ler

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    1. Sim, fez-me bem escrever. Estava a precisar de desabafar.

      Obrigada, Carlos

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  2. Pois é Miss...já eu ajudo as enfermeiras a picar-me, a dar-me as injecções, etc...elas ficam sempre muito aflitas e eu digo-lhes: isso é lá dor, avance, avance, isso não me custa nada. E é verdade, não é valentia, é porque a dor que tenho cá dentro é tão maior que aquela não me custa mesmo. Mas compreendo tanto a senhora, como a si, antes disto que agora vivo, também uma picada era capaz de me doer.
    ~CC~

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    1. Penso que a senhora gritou, porque a doença - que todos os dias lhe vai dissolvendo a vida interior, a memória e o mundo - a impede de antever e compreender o que se passa em seu redor. No seu caso, uma simples recolha de sangue pode ser aterradora. Eu não tenho qualquer receio de tirar sangue. Tenho noção de que é uma análise prescrita, um procedimento rápido e necessário. Mas depois daquilo que ouvi e senti, quase que me apeteceu aproveitar a picada e o pequeno desconforto físico para gritar as dores da vida humana. O que vi antes de fazer a análise foi o que me doeu verdadeiramente. E a CC sabem bem como as dores de dentro são lancinantes. Muito obrigada pelo seu comentário.

      Um abraço

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    2. Pois é...tem razão, se calhar o grito da senhora era a dor de dentro. Ainda bem que ela foi capaz de gritar.
      Abraço

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    3. Também acho, CC. Ainda bem que ela foi capaz de gritar.

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  3. Eu aceito tudo...mas seringas custa...compreendo-te!

    bom diaaaa

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    1. Dá para notar que é assunto que te melindra...
      Até o bom-dia saiu daqui a fugir :)

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  4. Vou pedir-lhe permissão, querida Miss Smile e, sem esperar que me a conceda, gostaria de expressar o meu sentir relativamente a esse "GRITO", que me apertou o coração.

    Penso que a idosa senhora não gritou apenas de dor pelo espetar da agulha da seringa, na carne sensível. Um grito de dor física não atinge a proporção e a repetição num som de angustioso crescendo.
    Na minha opinião houve, nesse grito, um extravasar da dor de alma, há muito guardada no peito. Precisando, apenas, de um pretexto para sair, desgarrado, dando tréguas ao sofrimento de toda uma vida.
    Às vezes, também me apetece gritar...Em breve vou precisar tirar sangue para as análises que faço periodicamente...Acho que vou aproveitar.

    Um beijinho, querida Miss Smile e obrigada por estes retalhos de vida descritos em forma de beleza tão pura.

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    1. A sua interpretação é muito plausível, querida Janita. A mim também me apeteceu usar o pequeno desconforto da picada como pretexto para gritar a angústia que me comprimia o coração. Não o fiz, mas já houve alturas em que um pequeno corte ou queimadura na mão me fizeram chorar mais do que seria expetável. Chorar e gritar têm um efeito catártico.

      Um beijinho e obrigada pelo seu comentário :)

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  5. Os gritos que saem em palavras são dos melhores de dar...
    beijinho Miss Smile.

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    1. A dor pode ser atenuada quando iluminada pela reflexão e pelas palavras.

      Um beijinho, Laura

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  6. Custa ouvir gritar assim. Como se o grito nos ferisse por dentro.

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    1. E fere mesmo, Luisa.

      “Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo. Cada um de nós faz parte de um todo. A morte de alguém deixa-me mais só, porque eu faço parte da Humanidade. Por isso, nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

      Ernest Hemingway, in Por Quem os Sinos Dobram

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  7. talvez a senhora gritasse da incompreensão da ironia do corpo, sei lá.
    (fiquei arrepiada)

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    1. Eu ainda estou arrepiada (como se ainda ouvisse os gritos).

      Pode ser, ana, um grito é sempre muito mais do que um grito...

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  8. As pessoas não sentem a dor da mesma maneira...
    Consta que os homens são-lhe mais sensíveis, mas não gritam porque controlam-se, guardam os queixumes para a esfera doméstica.
    As crianças gritam porque ficam tensas por antecipação...
    Ainda existem os carentes de carinho que exigem atenção...
    Realmente, todos gritaríamos se não nos dominássemos.
    Na minha opinião, terá havido uma conjugação destes fatores que levaram a senhora idosa a gritar lancinantemente.
    Smile, admiro a sua excelente memória visual, quase fotográfica!
    Beijinhos, querida amiga.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Querida Majo, interessante análise a sua. É verdade que gritar não é bem visto, nem é bem aceite, pois gera desconforto e apreensão nos outros. Todos nos controlamos para não gritar - uns mais do que outros, é certo. Quando gritamos, há sempre uma conjugação de fatores de diversa ordem.

      Um beijinho

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  9. mais do o grito, que transporto para o o quadro de Edvard Munch - a descrição tão bem delineada não deixa margens para dúvidas- interpretamos como quisermos, dizia, é o caminhar lento, o corpo curvado, o arrastar de pés, que elaboram todo um cenário de existência que, talvez, já não queira ser.
    um beijinho, Miss Smile,
    Mia

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    1. Quando escrevi o texto, tive sempre presente o quadro de Munch que a Mia refere. E também acho que o grito pode ser fruto de uma existência que, cansada de arrastar o peso de toda uma vida, já desistiu de todas as coordenadas e que, como a Mia tão bem escreve, já não quer ser.

      Um beijinho, Mia

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  10. Servem as palavras
    Tudo pelo melhor
    Bj

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    1. E há alturas em que precisamos tanto delas!

      Um beijinho, Mar

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  11. Que dor! (não a da agulha a espetar-se, mas da situação toda...) Apetece chorar. :(

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    1. Sim, Graça, apetece chorar. Ou gritar :(

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  12. O seu texto faz-nos ficar inquietos, incomodados, tristes.
    Porque é muito belo mas retrata uma realidade cruel.
    Beijinhos, bfds

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    1. E a realidade é inquietante. O envelhecimento, ainda que obedecendo a um processo natural, não deixa de ser cruel. A vida é uma areia movediça que nos vai sugando lentamente…

      Um beijinho, Pedro, e um bom fim de semana

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  13. Li este texto depois de ter lido e comentado o da outra sehora feliz com o seu amor. As pessoas com mais idade não costumam chorar com uma picadela; todas elas passaram por dores maiores e, em se tratando de mulheres, aguentaram a dor dos partos que não é nada meiga; costuma-se dizer que os homens são mais sensiveis às dores precisamente por não terem sofrido as do
    parto, por isso, querida amiga, creio que esta senhora gritou por causa da doença, por carencia de afectos ou por outras dores de alma sofrida; talvez lhe falte o amor que a outro soube encontrar ou então outro tipo de amor; é só a minha opinião e vale o que vale, mas foi a alma dela que gritou pedindo atenção, carinho, pedindo socorro à vida, se calhar, já muito cansada dela. Triste, muito triste a velhice, amiga! Beijinhos e obrigada por este " grito" que nos deve levar a dar atenção a tantos gritos de alma que ouvimos por aí
    Emilia

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    1. Sim, talvez a senhora gritasse socorro à vida... ou à morte. Quando a fragilidade atinge limites insuportáveis, a vida, toda ela, é uma dor contínua.

      Um beijinho, querida Emília

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