domingo, 12 de fevereiro de 2017

A esperança



Todos os sábados de manhã descia a colina de bicicleta até ao centro da cidade para comprar pão fresco. Dirigia-me sempre à mesma padaria, onde a filha de João Ubaldo Ribeiro trabalhava a tempo parcial. Assim que me via entrar, dava-me os bons-dias no seu português frutado e tropical. Ficávamos um pouco na conversa, contagiadas pelo prazer de poder falar a nossa língua. Para além dos pãezinhos com sementes de papoila e de sésamo, os meus preferidos, pedia, à parte, um café num copo de cartão e duas sandes de queijo e pepino de conserva. Colocava depois o embrulho no cesto da bicicleta e dirigia-me até à St. Jacobikirche. Àquela hora da manhã, não havia ainda muita gente na rua, apenas velhinhas de bicicleta, com chapéus festivos. Encontrava sempre o Bruno sentado no chão, encostado a uma das paredes seculares da igreja. Bruno era um sem-abrigo que me pedira dinheiro uma vez. Na altura, recusei, oferecendo-me para lhe comprar algo para comer, proposta que ele aceitou. Desde aí, passei a levar-lhe o pequeno-almoço aos sábados. Bruno era alto e magro. Trajava uma gabardina comprida e suja e exalava um cheiro incómodo, característico de quem não toma banho há mais tempo do que o recomendável. Tinha uma barba muito loura e comprida e usava o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo desalinhado. Fiapos de cabelo emolduravam-lhe o rosto mal tratado e pendiam-lhe sobre os ombros. Com o álcool a embotar-lhe os sentidos, recebia o pequeno-almoço das minhas mãos, mal me dirigindo um olhar, perdido no seu abismo de solidão. Mas agradecia sempre com um espirituoso Grazie, Bella!, talvez pensando que eu era italiana. Numa manhã, quando as primeiras folhas do ano começavam a cair em desordenada profusão, disse-me que ia para Hamburgo viver para casa de um amigo. Era a primeira vez que me olhava nos olhos e eu não pude deixar de sentir um estremecimento semelhante ao vibrar da corda de um arco. Os seus olhos eram amarelos, da cor do âmbar, penetrantes como os de um animal. Começou a contar-me a sua história e o motivo por que fizera da rua a única liberdade possível. Era uma história feita de sofrimento, crua e intocável, que só aqueles que têm a alma ferida sabem contar. Histórias que, por momentos, fazem de quem as conta um poeta. Por fim, com uma súbita docilidade no olhar, estendeu-me um pequeno embrulho feito com papel de jornal. Colhida de surpresa, recebi-o com as mãos a tremer. Mal embrulhado numa folha de jornal estava um pequeno comedouro para cães. Acanhado, coçou a cabeça, despenteando ainda mais o cabelo, e explicou-me que pertencera ao seu cão, Mathias, que adoecera e morrera há meses, e que essa era a única coisa de valor que possuía. Prometeu-me que, um dia, quando voltasse, seria ele a oferecer-me o pequeno-almoço. Sorri e, gracejando, disse-lhe que não me esqueceria dessa sua promessa. Mas as estações sucederam-se e eu nunca mais voltei a vê-lo. Às vezes, revemos tantas vezes a mesma cena que acabamos por mudar a sua história. E foi o que aconteceu com esta. Só mais tarde, a montante da sua partida, é que compreendi o que Bruno me ensinara. Por mais compactas e cinzentas que sejam as nuvens, haverá sempre um raio de sol a penetrar no mais fundo do ser humano, nas profundezas do seu ser. E o comedouro do Mathias, também ele uma das coisas mais valiosas que possuo, não mo deixa esquecer.