domingo, 5 de fevereiro de 2017

As possibilidades



Pedalávamos por estradinhas ladeadas de densos tapetes de colza cujo amarelo ressumava numa luz intensa, que conferia um tom mais escuro ao céu primaveril em fundo. O ar estava suave e morno. Bandos de pássaros voavam por cima de nós e não havia mais ninguém. Era uma tarde de sábado e tínhamos combinado um passeio de bicicleta seguido de um piquenique no campo. Dois amigos tinham desmarcado à última da hora e, assim, fiquei só eu e ele. Ao fim de uma hora, paramos para descansar e encostamos as bicicletas ao tronco de uma árvore inclinada. Ele estendeu uma toalha no chão que retirou da mochila. Cansada e transpirada, sentei-me ao lado de um tufo de ervas altas e bebi água da garrafa que tinha trazido. Quando a pousei sobre a toalha, ele pegou nela e bebeu dois goles de água, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Um fogo quente como gelo percorreu-me o corpo. Ele tinha os lábios onde os meus tinham estado antes. Foi estranho, porque nunca tinha pensado nele dessa forma. Era apenas um amigo e, contudo, por momentos, desejei que a sua sede não passasse. Pousando a garrafa, olhou-me com os seus olhos imensamente azuis, que, subitamente, me fizeram pensar no quão pouco sabia a seu respeito. Depois, retirou da mochila pão e queijo e um tupperware cheio de morangos que, no estado de confusão em que me encontrava, me pareceram beijos. Servi-me de um e trinquei-o cheirando a sua fragância inocente, envolvente. Enquanto comíamos, falamos de tudo e de nada. Talvez as palavras fossem as mesmas, mas os meus ouvidos eram diferentes. Era como se as palavras fossem uma canção, que me prendia a atenção com uma força inesperada. Foi então que pensei que se ele me pedisse, eu lhe daria, naquele momento, o meu coração, ainda a bater desordenadamente. Ele não mo pediu. E eu também não lho ofereci. Mais tarde, quando o sol se inclinou no céu e uma brisa fresca começou a soprar, subimos para as bicicletas e levamos para casa aquele segredo, que talvez fosse só meu. Semanas depois, ele teve um acidente muito grave. Esteve em coma induzido durante um mês. Visitei-o no hospital. Estava todo ligado, com tubos a sair do nariz. Só se distinguiam pequenas zonas de pele, uma pele mais clara do que a minha. Numa das visitas, encostei furtivamente a minha boca aos seus lábios frios e pouco mais pude fazer. Ele nunca viu a esperança no meu olhar. E eu nunca mais voltei a ver o céu dos seus olhos. Em todas as vidas existem vastos abismos de possibilidades não realizadas. E numa história de amor cabem sempre muitas histórias. Esta não teve sequer tempo para começar.

Julho de 1992