sábado, 4 de fevereiro de 2017

Assim às vezes



A manhã às vezes fica muito longe

Perco-me então por caminhos de água*

 
A areia fofa molda-se aos tornozelos enquanto caminho pela praia. Fixo a linha do horizonte, límpida e arqueada, e ouço o som ténue e ritmado das ondas a desfazerem-se. Há uma sensação de bênção a flutuar na luz dourada dos raios de sol. Às vezes, cada passo é uma recordação. Lembra-me a história daquela rapariga que queria ser perfeita. E o ar do mar ajuda-me a sentir as coisas com a precisão de um estilete. Lembro-me daquele dia em que cheguei da escola e encontrei a minha mãe a chorar, esfregando os olhos cansados. Lembro-me do seu pescoço nu, tão esguio e frágil. Abracei-a e encostei a face a ele, deixando que a minha pele falasse com a dela. Tratei-a pelo nome mágico da infância. Mamã. A minha querida mãe, tão quebradiça. A minha própria mãe que foi também minha filha, que me fez forte e tão carente. Para a poupar, sempre acarretei com o peso da minha vida e dos meus desgostos. Sim, sei que sou forte. Mas, às vezes, há distâncias demasiado vastas para um ser humano atravessar. 

Janeiro de 2017

* Eugénio de Andrade, in Véspera da Água