quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Fantasmas



A noite cai como uma teia sobre a minha pele. Nas janelas dos apartamentos em frente, retângulos de luz brilham como almofadas de seda. Uma moto ronca direita ao seu destino e, ao longe, uma música envolve a cidade com um aroma secreto. Não estou sozinha à janela. Tenho a companhia dos meus fantasmas. Uns aninham-se no pescoço, outros arranham-me os braços com as suas unhas mal aparadas, pedindo-me atenção. Ouço-os silvar, mas não os afugento. Já me habituei à sua presença. Entram furtivamente no meu quarto, na minha cama, nos cantos mais recônditos da minha casa. Camuflam-se nas paredes, nas portas e nos tapetes. Acho que não passam sem mim. Admiram-se? Nunca viram nenhum? Bem, então têm sorte. Na verdade, eu também não vejo os meus, desde que se tornaram mestres na arte da invisibilidade. Mas sinto a sua pele fria e pesada. Para onde vou, seguem-me. Nunca me abandonaram. Os primeiros saíram das histórias dos meus avós. Lembro-me deles com o rigor de quem se lembra da primeira vez que andou de avião, cuspiu o primeiro dente de leite ou teve o primeiro desgosto de amor. Naqueles tempos, eram almas de outro mundo que habitavam a noite, sem cabeça e sem norte, seres rastejantes, matreiros e ondulantes que se escondiam nos campos gretados à volta da casa dos meus avós, piratas desembarcados na praia com facas a rodopiar, vindos dos sete mares. À vasta galeria juntou-se-lhe depois o Carambola, um velho muito velho que calcorreava o mundo, de saca às costas, recolhendo todas as crianças que não comiam, o que era o meu caso. Mais tarde, submergiram outros, esses, mais subtis e refinados, mas nem por isso menos perigosos. Nasceram de palavras como Tu não és capaz, Tu não vais conseguir, Aviso-te já que não vai dar certo. Esses não nasceram de mim, mas alimentei-os e, um dia, tornaram-se meus. Há palavras que se metamorfoseiam quando as levamos demasiado a sério. De um momento para o outro, perdem a sua cor alva para se tornarem negras. Ao contrário do que se pensa, os fantasmas não são brancos como as paredes. São negros como o fundo de um pântano. Só a cauda é que é esbranquiçada, como uma faixa de tule que nos acena na noite. No início, recorri a todas as minhas forças para lutar contra eles, mas só consegui que ficassem mais fortes. Pareciam trovões que me nasciam nas palmas das mãos. Depressa me dei conta que tinha de mudar de estratégia. Comecei então a aliviar a tensão da corrente de ferro que os prendia a mim. Deixei que saíssem da caverna escura e que cirandassem pela casa à vontade. E, com efeito, a luz e o ar fizeram-nos mais pequenos, curiosas silhuetas do tamanho de uma caixa de fósforos. Agora, já não fujo deles. Acolho-os de braços abertos. Sento-os ao colo, aconchego-os a mim, coço-lhes as costas e ouço-os. Eles gostam de ser ouvidos. Normalmente, acabam por adormecer nos meus braços, embalados pelas próprias ladainhas tantas vezes repetidas. Não sei quem se rendeu; se eles a mim, se eu a eles. O que sei é que foi esta a única forma que encontrei para não me deixar devorar por eles.


13 comentários:

  1. Foram domesticados. A Miss Smile é quem manda. :)

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    1. Sim, em minha casa mando eu. Já nos meus pensamentos… :)

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  2. Também ando a domesticar os meus.
    Alguns já os mandei mesmo dar uma volta :)

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    1. Laura, também já emiti uma ordem de despejo para alguns :)

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  3. Quem sabe acabam por ficar os mais simpáticos, como o Gasparzinho! ;)

    Beijocas repenicadas, querida domadora de fantasmas. :)

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    1. É verdade, estão a ficar cada vez mais gentis, confirmando o ditado que não é com vinagre que se apanham fantasmas :)

      Beijinhos repenicados, querida Gasparzinha :)

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  4. Perdeito e muito divertido, Smile...
    Porém, garanto-te que umas sessões de psicoterapia, em que
    possas falar deles à vontade, são um ótimo recurso.
    Mas este texto já é uma grande ajuda...
    Os meus apenas me incomodam quando estou com insónias.
    ~~~ Terno abracinho, querida amiga ~~~

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    1. Obrigada, querida Majo. Que haja alguém que se diverte com os meus fantasmas :)

      Um abraço assombrado :)

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  5. Parece que estou a ouvir em fundo o Pedro Abrunhosa a cantar - quem me leva os meus fantasmas.
    Gostei muito!
    Beijinhos

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    1. Quem me leva os meus fantasmas
      Quem me salva desta espada
      Quem me diz onde é a estrada
      Quem me leva os meus fantasmas…

      Lá, lá, lá… :)

      Um beijinho, Pedro

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  6. Ao longo da minha vida fui exorcizando alguns do meus fantasmas.
    Apenas um, que me acompanha desde o berço, ainda o não consegui domesticar. Continua comigo: em carne viva. Nem ele me abandona nem eu o consigo vergar. É algo como uma maldição, que levarei comigo...

    Um beijinho, querida Miss Smile.

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    1. Há alguns que sempre lá estiveram. Contam a nossa história mais recôndita, são carne da nossa carne. Somos nós.

      Um beijinho, querida Janita, e obrigada pelo seu comentário

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  7. Também tenho alguns, cada vez menos é certo, no entanto há-os muito teimosos :)

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