sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Um sol invisível



Sob os raios de sol brilhantes e suaves do fim da tarde, a igreja parecia mais bonita. As andorinhas volteavam a sua torre numa emergência de movimentos, numa ressonância de sonhos. Eu entrava na igreja pequena e luminosa, onde reinava uma acetinada frescura e o cheiro picante a coisas divinas. O silêncio, que me contagiava com a sua intensidade, era apenas quebrado por um rápido ruído de passos ou pelo estalar da madeira de um genuflexório. Pouco depois, ele aparecia, de sorriso rasgado e guitarra na mão, encabeçando a fila ordenada dos elementos do coro. O rosto, banhado pela luz que entrava pelos vitrais, cintilava de suavidade translúcida e fazia o meu coração disparar. Quando o padre surgia pela porta da sacristia, acompanhado pelos acólitos, ele fazia um leve sinal com a cabeça e todas as vozes se elevavam em uníssono, guiadas pelos acordes da sua guitarra. Eu juntava a minha voz às suas, ao mesmo tem tempo que, dentro da minha cabeça, uma máquina de fantasias me sussurrava ao ouvido palavras secretas. Oculta na minha carapaça, deixava que a música me percorresse todas as veias e artérias até aos capilares mais ínfimos do corpo. Por vezes, olhava em redor e perscrutava os rostos pálidos e inexpressivos dos adultos, que lançavam em frente olhares fixos. E não compreendia como, perante toda aquela beleza, toda aquela música, eles não se deslumbravam, não sorriam e não contemplavam o altar com lágrimas nos olhos. Quando o último cântico assinalava o final da eucaristia, os meus pais levantavam-se e eu acompanhava-os. Lá fora, o sol começava a esconder-se atrás das árvores e uma leve brisa agitava-me o vestido e o cabelo. No caminho para casa, entoava os cânticos numa alegria esfuziante, ainda com a emoção a inchar-me a garganta. Dias mais tarde, quando as imagens começavam a secar e a perder vivacidade e a corrente elétrica se começava a dissipar na atmosfera dos dias sempre iguais, bastava-me escrever, anotar as palavras e as frases num caderno, para que tudo se voltasse a erguer, como uma cidade mágica, cheia de flores e pássaros a cantar. E embora eu fosse ainda muito nova e aquele amor não fosse uma possibilidade genuína, pois era apenas um sol invisível que dá luz, mas não aquece, foi a sua abstração que me fez começar a escrever.


Sem comentários: