domingo, 12 de março de 2017

A alfarrobeira



Na casa da minha avó, havia ao fundo do quintal uma alfarrobeira que fora plantada pelos meus bisavôs. Tinha um tronco grosso e nodoso metido na terra e ramagens robustas e frondosas que se curvavam até ao chão, formando uma espécie de sala. Nas tardes quentes de verão, desaparecíamos na penumbra fresca dos seus ramos, deixando que apenas alguns dedos de sol filtrados pela folhagem nos lambessem a pele bronzeada e arranhada de espinhos e ervas secas. Era lá que viajávamos até à lua na tábua suspensa que servia de balouço, decidíamos as secretíssimas senhas do clube, inventávamos mapas de tesouros e desfolhávamos as horas. Eu, às vezes, gostava de ir para lá sozinha. Era nesses momentos, quando a terra permanecia quieta e silenciosa e apenas os ramos estremeciam com o suave murmúrio do balouço, que melhor sentia uma alegria brava a brincar no meu coração. Era lá, longe dos horizontes empardecidos e sonolentos da cidade, que tinha a sensação de que ainda faltava escrever a página mais bonita da minha vida. No campo, tudo era gratuito. O céu azul, de um brilho tão incandescente que fazia doer os olhos, a silhueta esguia das árvores, o zumbido quente dos insetos a tecer malhas invisíveis, o sol a derramar toda a sua luz no redondel alongado das horas. Coisas bonitas que se metiam por dentro de nós e que nos davam vertigens de tanta felicidade. De alma afinada, mergulhávamos na flor de todas as brincadeiras, como uma abelha que se embebe de pólen, pétalas e perfume. À noite, adormecíamos, exaustos, nas cadeiras de verga a olhar para as estrelas geladas. Tudo aquilo era o que existia de mais nosso e cada dia era a promessa de um novo encanto por estrear. A alegria é uma coisa repentina, como o aroma do tomilho selvagem. E dura sempre menos do que conseguimos aguentar. No fim do verão, tinha de fazer as malas e voltar para casa. E eu não queria ir embora, pois tinha já esquecido o que fazia em casa. Entrava no carro com o desgosto a gotejar no vestido, os dedos trémulos de acenar, o pescoço torcido, virado para trás, vendo a minha avó a ficar cada vez mais pequenina, até desaparecer na curva. Então, pendurava a minha alegria nos ramos mais altos da alfarrobeira, porque tinha a certeza de que ela estaria lá no verão seguinte e, de coração desfeito, colava o rosto ao vidro da janela, guardando todas as imagens por trás das pálpebras. Foi assim que me comecei a exilar dentro de mim mesma.


20 comentários:

  1. Também tenho grandes recordações das minhas férias em casa da minha avó e lembro-me perfeitamente da despedida e de tal como tu vir com o nariz colado à janela e cheia de pena... mas não era tristeza que durasse muito logo começa a pensar nos amigos que ia encontrar :)) Bjs e boa semana

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    1. A minha tristeza durava muito tempo. E repetia-se a cada nova despedida. Depois, fiquei mais crescidinha e passou :)

      Um beijinho e boa semana

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  2. A alegria é uma coisa repentina como o aroma do tomilho selvagem. Gostei de ler esse reviver das férias passadas no campo em casa da avó. Eu não tinha alfarrobeira mas tinha uma oliveira e compreendo muito bem todos esses sentimentos. São uma delicia os teus escritos. Uma boa semana.

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    1. Nós também tínhamos uma oliveira centenária, habitualmente designada de “ninho de cucos”, que ficava na extrema do terreno da minha avó e que nos servia de posto de observação para as diligências e investigações do clube :)

      Uma boa semana, Benó

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  3. Teve a sorte de ter uma infância que lhe proporcionou esses refúgios querida Miss Smile.
    Guardou dentro de si esses momentos de felicidade para colmatar outros, decerto menos bons.

    Um grande beijinho

    O Toque do coração

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    1. É um passado importante que se escreveu em mim e é também uma forma de honrar as pessoas que me ajudaram a ser o que sou.

      Um beijinho, querida Fê

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  4. Estimada Smile, é tocante verificar quanto é gratificante para si recordar a sua avó tão especial e todo o encanto das férias passadas nesse quintal repleto de encantos e recantos singulares...
    Conheço a deliciosa frescura dessas alfarrobeiras algarvias centenárias, com aroma de tomilho selvagem por perto e a azáfama dos insetos...
    É tão fácil sermos felizes em crianças com liberdade silvestre e amigos para brincar...
    As narrativas passadas na casa de sua avó são sempre doces e de rara beleza enternecida, deixando-me muito feliz por si.
    Rápido restabelecimento do filho e uma semana muito aprazível para toda a família.
    Beijinhos, querida amiga.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Uma vez, aquela alfarrobeira provocou-me um grande dis(sabor). Conta a minha mãe, pois eu era ainda muito pequena, que, chegada a casa da minha avó por volta do período da Páscoa, desatei a correr em direção à alfarrobeira, encantada com a profusão de frutos que adornava os seus ramos. Arranquei um dos ramos mais baixos e, sem fazer cerimónia, dei-lhe uma valente dentada. A desilusão não podia ter sido maior. Eram alfarrobas (ainda verdes) que eu, na minha ignorância, confundi com bananas, na altura, a minha fruta preferida :)

      Um beijinho, querida Majo

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  5. Quando descreve desta maneira enternecedora os momentos marcantes da sua infância faz-nos quase viver esses mesmos momentos.
    Beijinhos, boa semana

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    1. Então, suba para cima do balouço que agora empurro eu! :)

      Um beijinho, Pedro, e boa semana

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  6. À noite, quando era pequenina, eu e a minha amiga saíamos de casa para nos deitarmo-nos no chão e olhar as estrelas. Com sorte ainda pedíamos um desejo a uma estrela cadente. Os avós dela tinham uma casa de férias perto dos meus. E só por essa altura é que estávamos juntas. É o que me lembro com mais saudade. Hoje ainda sonho com uma pequena casa de madeira no campo. :)

    Minha Miss, adoro-a, sabe? :)

    Deixo-lhe um beijo no coração. :)

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    1. E o campo é um excelente observatório de estrelas cadentes :)
      Enquanto os adultos dormiam, eu, o meu irmão e as minhas primas saímos muitos vezes pela janela para o coração da noite – fazíamos piqueniques ou deitávamo-nos na terra ainda morna, virados para a abóbada estrelada do céu, e conversávamos baixinho :)

      Uma casa de campo assim?

      https://www.youtube.com/watch?v=1edqNf1AYBE

      Um dia, adoto-a :)

      Um beijinho, querida Alaska (que bom que está de volta!)

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    2. é uma casinha igual a essa, miss. obrigada pela partilha. :)

      adopte-me, sim. e eu prometo que também cuidarei de si com o melhor que há de mim. :)

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    3. E eu farei o mesmo - com o melhor que há em mim :)

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  7. Também tive um balouço numa alfarrobeira... :)

    E ao lê-la, lembrei-me disto:

    Ninhos de Mar

    Nos troncos mais altos
    da alfarrobeira
    ninhos
    azuis de mar ao longe.

    (Teresa Rita Lopes)

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    1. Que bonito, Luísa :)

      E é que nem podia vir mais a propósito. A minha alfarrobeira marulhava nos dias de vento :)


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  8. Por aqui, no meu rural, não há muitas alfarrobeiras. Mas há árvores endémicas onde se pode fazer um baloiço
    Kis :=}

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    1. Todas as infâncias deviam ter uma árvore com balouço. :)

      Um beijinho, AvoGi

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  9. Estas suas ternas recordações de infância, querida Miss Smile, deixam-me sempre com um sorriso no rosto, feliz, por si! E por mim!
    Eu não tive alfarrobeiras para onde pudesse trepar - no Alentejo nunca as vi - tinha romãzeiras... Mas o meu baloiço, aquele que me levava até ao infinito, era feito numa trave do alpendre, ao fundo do quintal, com uma tábua a fazer de assento na corda suspensa. Nem precisava de ser empurrada, levantava as pernas e recolhia-as ao vir para trás, até ganhar lanço e balanço. :)

    Um beijinho. :)

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    1. Querida Janita, fico também feliz por saber que teve um balouço. A felicidade é sempre uma espécie de abandono e, num balouço, fica mais intensa :)

      Um beijinho :)

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