segunda-feira, 6 de março de 2017

A cereja no topo do bolo



Sob a copa azul e branca do céu, a superfície do mar reflete uma luz prateada e complacente. Nas ondas que se desfazem em espuma pressinto o movimento permanente das coisas ilegíveis. A linha do horizonte, que sei que não existe, ondula ao fundo. É uma linha alada que me roça o olhar, como a sombra de um corvo-marinho a planar sobre o mar. Todos os dias, quando vejo o mar, coincido com uma linha diferente. Com ela, volto sempre ao princípio. É lá, longe do sítio onde morrem as ondas, que aprofundo a minha dimensão de futuro. Reinvento-me e aceito que a minha vida é uma história sempre em aberto - a permanente busca de um sentido iluminado. Uma superfície fugidia que esconde uma profundidade insondável.

Depois da tempestade, os meus dias têm sido serenos. Não é que não tenha tido inquietações e desassossegos vários. Às vezes, é precisamente nos dias mais quietos e sem vento que eles se tornam monumentais. Mas tenho-me esforçado por compreendê-los e, assim, me reconciliar com eles. Há tempos, fiz um pacto de amizade comigo mesma. Foi no dia em que descobri que, sendo importante, não sou assim tão importante. Num mundo inconcebivelmente imenso, não passo de um pequeno centro de consciência. E foi a descoberta da minha vida escondida, praticamente invisível aos olhos do mundo, que me fez apreciá-la ainda mais e festejá-la, como uma flor que se traz todos os dias na lapela. Dessa confiança inesperada nasceu a descoberta de que não preciso de provar nada a ninguém. Nem sequer a mim mesma. A vida está para lá da ânsia rígida das expectativas e o seu valor não depende do que tenho ou do que me dão. Mas somente da minha vontade de dar o meu melhor. Na vida, não há cereja no topo do bolo. Ela vale por si. E, como escrevia Rilke, tem sempre razão.


16 comentários:

  1. Querida Miss Smile, obrigada por me fazer sentir especial, principalmente quando tenho tantas dúvidas acerca disso.

    Olho esse horizonte na sua companhia e recebo as suas palavras como carinhos. Agora sei que não estou sozinha.

    o meu beijinho grato

    O Toque do coração

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    1. Somos especiais quando aceitamos a nossa vulnerabilidade, pensamos pela nossa própria cabeça e achamos que os outros são tão especiais como nós.

      Um beijinho, querida Fê

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  2. Porque no fim, dentro de mim, eu sou assim.

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    1. Precisamente :)

      Um abraço, Impontual

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  3. Que bem pensado, Miss Smile. Não se importe que lhe plagie o pacto? É que acho que vale mesmo a pena encarar a vida assim.
    :)

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    1. Esteja à vontade, Luísa. Nestas matérias não há direitos de autor :)

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  4. Belo texto!! Dava tudo para fazer um pacto de amizade comigo própria... mas vejo-me tão imperfeita!

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    1. Mas foi precisamente por ser tão imperfeita que fiz um pacto de amizade comigo própria!

      Um beijinho, Graça

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  5. Que belo pensamento, querida Miss Smile e como me revejo nas palavras escritas.
    Quando a leio, parece-me tudo tão simples, tão fácil, penso até que, se me esforçasse, conseguiria expor assim os meus sentimentos.
    Qual quê!? A mão que pinta com tanta precisão a tela da vida, precisa ser segura, sábia, experiente; e a minha, não foi treinada para pintar...

    Um beijinho, querida Miss.

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    1. Também eu gostava de ser segura, sábia e experiente. Não sou. Apenas tento recolocar a vida em perspetiva. E a verdade é que nunca me senti tão bem na minha própria pele.

      Um beijinho, querida Janita

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  6. Um pensamento periclitante.
    De vez em quando é preciso lavar a alma
    Kis :=}

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    1. Eu diria, sempre. A consciência da vida interior é mais importante do que a preocupação com a aparência exterior.

      Um beijinho

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  7. Anseio por que ambas as partes de mim assinem um pacto assim. Agora, querida Miss, que o descreve dessa forma, vejo tudo mais claro, talvez ainda consiga. Beijinho e que esse pacto continue a fazer com que a paz reine por aí :) Beijinho

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    1. Claro que vai conseguir, querida GM – Best Friends Forever :)

      Um beijinho

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  8. Os abanões que a vida nos vai dando mostram-nos que não há uma cereja no topo do bolo ou que há muitas cerejas que temos de saber aproveitar.

    Que belo texto e que belo pacto.Que tenhamos sabedoria para estarmos em paz.

    Bjs

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    1. O essencial é conseguir ver tantas cerejas quanto encostas.

      Um beijinho e obrigada, Princesa

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