sábado, 11 de março de 2017

A maldadezinha



Tudo o que fazemos – ou deixamos de fazer - tem repercussões nos outros. O meu filho lesionou-se num dedo do pé no decorrer de uma aula de educação física e um colega, ao ouvir a sua queixa, achou por bem agravar-lhe as dores, pisando repetidamente a zona lesionada com o próprio calcanhar. Apenas porque lhe apeteceu. E o que podia ter sido uma lesão mais ou menos ligeira acabou por se tornar em algo mais sério. Apesar de tudo, as crianças são mais honestas nos seus impulsos mais mesquinhos. Não dissimulam os esgares de lobo e as presas arreganhadas com sorrisos amistosos, palmadinhas nas costas ou palavrinhas de consolo, como fazem os adultos. Nesse mesmo dia, vivi uma sucessão de situações que poderia ter tido um desfecho mais feliz se tivesse existido mais solidariedade. Mas não foi o que aconteceu. O que aconteceu foi que se disse levianamente Não apenas porque sim. Disse-se Não porque havia um somatório pirotécnico de frustrações e ressentimentos, porque houve preguiça em facilitar e tornar acessível, porque houve necessidade de perpetuar as mesmas palavras e gestos maldosos de que já se foi alvo. A maldadezinha que grassa no quotidiano é um lugar-comum, uma vulgaridade. Na maioria dos casos, nem se trata de algo muito elaborado, mas de uma atitude mesquinha e irrefletida, que resulta da falta de consciência e da falta de empatia. Pode manifestar-se num revirar de olhos, numa inércia bovina, num encolher de ombros, numa intrigazinha, num olhar altivo, numa resposta enxovalhante. Pequenas alfinetadas, aparentemente sem profundidade, que não têm em conta a sensibilidade e a história de outrem. Eu sei que a vida nos pede decisões todos os dias. E são tantas que, por vezes, nem tomamos verdadeira consciência delas, mergulhados que estamos no automatismo das múltiplas tarefas que temos a nosso cargo. Mas todas as decisões, por mais pequenas que sejam, pressupõem sempre a liberdade de escolha entre o bem e o mal. Para poder fazer bom uso dela, é preciso também ser capaz de se distanciar de si próprio, pensar em si como uma possibilidade, no sentido de se poder ser aquela outra pessoa. Porque o respeito pelo outro é sempre uma forma análoga de respeito por si mesmo.


30 comentários:

  1. Não fora, as duas frases iniciais, até me apetecia dissertar um pouco sobre certas atitudes de 'certas' pessoas que, colocando-se no papel de pseudo vítimas, vão lançando (a despropósito ) o veneno da intriga e da pura maledicência. Não o farei,contundo, porque me senti tão sensibilizada com o facto de haver um jovem capaz de um acto de tamanha crueldade que, tudo o mais, me parece quase insignificante. Isto, porque as atitudes mesquinhas e maldosas - que procuro sempre ignorar - ainda me parecem ficar aquém, desses actos de pura barbárie. Compreendo, no entanto, onde quis chegar, quando diz serem as crianças mais honestas, que os adultos, nos seus impulsos mesquinhos, porque não se disfarçam sob a pele de cordeiro. Mas, pisar propositadamente o pé lesionado, de um colega? Meu Deus...que tipo de pessoa será esse garoto, no futuro?
    O meu pensamento só se fixa nesta cena horrível...O resto, sendo horrível também, ignoramos, não deixamos que nos faça doer...

    Um beijinho com tristeza, querida Miss Smile.

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    1. A questão é que estas coisas acontecem todos os dias. Nas escolas, no trânsito, no trabalho. A maldade é banal. Nem sempre resulta de intenções maliciosas e premeditadas, mas apenas da falta de vontade em fazer o bem. Por vezes, a maldade não está no ódio, mas na indiferença, na falta de empatia pelo sentir do outro.

      Um beijinho, querida Janita, e obrigada

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  2. O facto é que "somos" exímios em maldadezinha... é uma vertente da "nossa" proverbial e dissimulada mesquinhez ...

    Melhoras do garoto.

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    1. Pois, somos primatas. Dissimulamos, conspiramos. Estamos sempre a fabricar a fraqueza nos outros.

      Obrigada, Graça

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  3. Miss Smile, parece-me tudo mal: a atitude do rapaz, a intriga à volta e acaso se o cruel de serviço não foi penalizado.
    O que estás a defender neste texto, que eu também defendo, continua a não agradar a gente demais porque implica uma certa solidão dos que não querem encarneirar.
    Bom fim-de-semana!
    Beijo

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    1. Está tudo mal aqui. E é assustador o potencial infeccioso destas maldadezinhas quotidianas perante o conformismo e indiferença da maioria. A responsabilidade individual tende a diminuir quando a responsabilidade coletiva se demite.

      Um beijinho, Isabel

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  4. ~Querida Miss Smile:

    Quando a maldadezinha começa tão cedo e apenas porque lhe apeteceu, é muito preocupante.
    A falta de solidariedade vai-nos desanimando e desarmando.

    Um beijinho e as melhoras do seu filho


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    1. Receio que a maioria das crianças não seja estimulada a pensar pela própria cabeça e a desenvolver um espírito crítico em relação ao que as rodeia. Este tipo de comportamentos são comuns nas escolas. Muitas vezes, são perpetuados irrefletidamente, apenas porque fazem parte da corrente dominante.

      Um beijinho, querida Fê, e obrigada

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  5. Tchiiii, Que maldadezona! Como será ele quando for grande? Um abraço Miss Smile e as melhoras do jovem.

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    1. Creio que será como certos "adultos" que vemos por aí, no trânsito, no trabalho, na televisão...

      Um abraço, Benó, e obrigada

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  6. Nem há palavras, Miss Smile... :( Que dizer quando a falta de empatia começa cedo? Espero que o seu filho recupere rapidamente e sem mazelas. Quanto ao outro rapaz, será mais difícil...

    Bjs

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    1. O meu filho está a recuperar bem e, felizmente, não ficará com sequelas. Já a recuperação do outro rapaz será mais difícil e preocupante.

      Um beijinho, Princesa

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  7. Que dizer? É isso mesmo, Miss Smile.
    Ah, a sua escrita é muito boa, parece que passou por um filtro pleno de harmonia.

    Uma boa semana :)

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    1. Os meus agradecimentos, AC, sem filtros :)

      Uma boa semana para si :)

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  8. quando algum espertalhão tentava limitar a liberdade dos meus rapazes, o instinto animal sobrepunha-se em mim e ameaçava o espertalhão em pessoa...

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    1. Ah, mãe leoa! :)

      Eu lá consegui abafar os meus instintos e dei um rumo oficial ao caso.

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    2. o rumo oficial, às vezes é lento, e nesse entretanto muita coisa podia acontecer, então eu dava uma 'ajudinha' aos desígnios da justiça :)

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    3. Referes-te a umas "rezas", não é? :)

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    4. Não. Umas promessas :)

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  9. sexta-feira "pisei" um "pé" já por si "lesionado" e o resultado foi como me "pisar" a mim próprio... ultimamente nã sei o que tenho, é como se a maldadezinha se infiltrasse nos poros...

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    1. Tu não és mauzinho, Manel. Às vezes, és apenas um bocadinho desastrado. Mas eu gosto de ti na mesma :)

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    2. Miss Smile, até tenho mau no nome...

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    3. Oh, mas isso é apenas um pequeno erro de casting...

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  10. Acho que a honestidade das crianças é verdadeira sim, seja para o bem, seja para o mal, é tudo sem filtros, cabe aos adultos ensinar-lhes os limites. Há coisas que não se fazem. Infelizmente são os próprios adultos por vezes que lhes dão os exemplos...

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    1. Esse é o cerne da questão, GM. Tantos exemplos para imitar...

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  11. Não concordo inteiramente com a teoria de J J Rousseau...
    As crianças depressa desenvolvem instintos humanos primários, que precisam ser burilados pela educação e um deles é a inveja...
    No entanto, crianças muito reprimidas ou com problemas em casa tendem a ter comportamentos violentos.
    Há dias que devíamos esquecer, mas permanecem na memória como um alerta...
    As melhoras do filho.
    Beijinhos, querida Smile.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. E eu não concordo nada com o mito do “bom selvagem”. Sabemos que a natureza pode ser mais bem sangrenta que a civilização. Só a perda de alguma liberdade pessoal (contrato social) é que permite que se possa viver várias formas de liberdade, sem cair na libertinagem, ou seja, no desrespeito pela liberdade do outro. A ética não nasce com ninguém. É uma aprendizagem e o caráter, algo que precisa de ser continuamente aperfeiçoado até ao fim da vida.

      Um beijinho, querida Majo, e obrigada

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  12. Só de ler me doeu.
    As melhoras do rapaz.

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    1. A mim, doeu-me no corpo todo...

      Obrigada, Luisa.

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