quarta-feira, 15 de março de 2017

Corpos nus e almas rococós



No balneário feminino, a azáfama é grande. Mulheres espalham creme pelo corpo, secam ruidosamente o cabelo, maquilham-se em frente ao espelho. Corpos húmidos, levemente fumegantes, enrolados em toalhas, regressam do duche e encaminham-se para os respetivos cacifos.
Do meu lado direito, uma mulher, ainda em traje de nascimento, equilibra-se numa perna, qual flamingo de perna erguida, tentando enfiar uma meia no pé suspenso. 
- Ai, já estou farta de tanta roupa! Nunca mais vem o bom tempo. Já nem sei o que vestir! – exclama, esganiçada.
- Olhe, a minha vizinha é que não tem problemas desses! Todo o santo inverno aquela mulher andou com o mesmo casaco. Já nem posso vê-la! Qualquer dia ainda lhe empresto um dos meus. – grasna a mulher que se encontra do meu lado esquerdo, interrompendo a aplicação do verniz antifúngico na unha do dedo grande do pé.
- Eu emprestar as minhas coisas? Deus me livre! Imagine que lhe põem uma nódoa de gordura. Não, eu gosto de ter as minhas coisinhas arranjadinhas. E há pessoas tão desleixadas… - diz a do lado direito, arfando, agora tentando calçar a outra meia.
- Ah, pois há! Veja lá que essa minha vizinha manda o marido trazer o almoço de fora todos os dias. Aquela mulher parece que não cozinha. Bom, ele também não tem nada para fazer. Passa o dia a ler o jornal e o filho, que queria ser escritor, não... 
Tenho a certeza de que pareço uma estátua etrusca no meio daquelas duas mulheres nuas. Por fim, alheio-me da sua conversa galáctica e penso que, até na nudez do corpo, a alma continua pejada de artifícios, berloques e rendas costurados a partir daquilo que pensa que é a fraqueza dos outros. Espero que nos momentos mais efervescentes do amor as almas daquelas duas senhoras nuas se mostrem numa nudez total ou, pelo menos, num vestido de corte simples, com uma fileira de botões à frente, fácil de ser desabotoada.


24 comentários:

  1. Tenho algumas dúvidas, Miss Smile. Acho que quando o fel fininho começa a correr nas veias, não há muitos momentos em que a pessoa inquinada tenha uma trégua aos seus efeitos.
    Continuo a adorar lê-la :)
    Um dia feliz, e um beijinho.

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    1. Eu, que sou uma pessoa de esperança, acalento, por vezes, estas ideias improváveis. :)

      E eu continuo a gostar muito de a ler, querida Linda Blue :)

      Um beijinho e um dia feliz

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  2. Bilhardices de vizinhas, tão comum! Antes era à janela agora nós balneários
    Kis :=}

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    1. E na Assembleia da República :)

      Um beijinho, AvoGi :)

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  3. Nos momentos efervescentes do amor, elas vestem-se.

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    1. De cabedal negro e chicote :)

      Um beijinho, miúda gira :)

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  4. É muitas vezes pela conversa que nos pomos a nu.

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    1. Sem dúvida, Luísa. Palavras sábias.

      Um dia feliz :)

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  5. Já me fez rir com o 'traje de nascimento', querida Miss!! :))
    Quem vai fazer um brilharete, vou ser eu, quando me sair com essa expressão lá nas minhas coscuvilhices: "Aquela, quase que vai em traje de nascimento"...lol

    Belo texto sobre a futilidade.
    A minha Mãe costuma dizer :'Por fora cordas de viola e por dentro pão bolorento'

    Um beijinho, querida Miss Smile :)

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    1. É muito engraçada a expressão da sua mãe. Não conhecia :)

      Um beijinho, querida Janita :)

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  6. Essas mulheres despidas despiram-se da boa educação. Gostei de ler a descrição, Miss Smile, que reconheço.

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    1. Nos balneários assiste-se muito a esse tipo de “streep tease” :)

      Um dia feliz, Benó :)

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  7. e depois há aquelas mulheres que correm descalças num campo aberto e desenham palavras na terra, essas são as bonitas. e é por essas que me apaixono todos os dias. :)

    deixo-lhe um beijo no coração, miss. :)

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    1. Essas são também as minhas preferidas :)

      Um beijinho, querida Alaska :)

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  8. Querida Miss Smile,

    Seria tão bom haver balneários para despir e lavar aquelas almas :)

    Delicio-me com os seus textos!

    Um beijinho

    O Toque do coração



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    1. Talvez um dia se invente uma lavandaria para almas :)

      Obrigada, querida Fê.

      Um beijinho :)

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  9. que dizer? "pobre flamingo" que do bico comprido só saíram bicadas, e de penas revestido, merece pena por tal pobreza de roupagem interior.
    olá, Miss Smile, desejos de uma boa noite.
    beijinho,
    Mia

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    1. Muito bem resumido. Um pobre flamingo periclitante, sem penas e sem asas.
      Olá, querida Mia. Votos de um dia feliz.

      Um beijinho :)

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  10. De facto, por vezes é tão aborrecido aturar estas conversas
    triviais, de quem não sabe comportar-se em público...
    Os brasileiros possuem um termo muito adequado e bem
    humorado - chamam-lhes «dondocas»... temos que dar um
    desconto, porque não passa de falta de educação...
    Beijinhos, estimada Smile.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Eu diria, “desocupadas” – não no sentido de não exercerem uma atividade (não faço ideia o que é que aquelas senhoras fazem na vida), mas no sentido de não cultivarem o pensamento.

      Um beijinho, querida Majo :)

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  11. Sabe o que é se chama a gente assim aqui em Macau?
    Língua de trapos!
    Beijinhos

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    1. Cá também se utiliza o termo. E, neste contexto, a palavra “trapos” vem mesmo a calhar :)

      Um beijinho, Pedro :)

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  12. A calhar... uns headphones...

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