sexta-feira, 31 de março de 2017

Ler o avesso dos olhos



A senhora pergunta se pode sentar-se ao meu lado. O café está cheio e a mesa encostada à minha é a única que se encontra livre. Reparo que tem uma voz calma e gestos bonitos nas mãos enquanto fala. Esboço um sorriso e convido-a a sentar-se. Esta é a minha mesa predileta, porque fica junto à janela, comenta com uma voz alegre. Respondo que é também a minha preferida e, instintivamente, olhamos as duas para a rua, para a nesga de dia que se apresenta do lado de fora do vidro. Na árvore em frente, uma confusão de penas agita a folhagem. Pardalinhos alegres, diz a minha vizinha de mesa, com a ternura rente à voz. Faz-me sorrir. Tem um rosto simpático e o cabelo grisalho parece espirais prateadas. Dentro do café, paira um cheiro a pão fresco e eu sinto-me confortável com a inesperada cumplicidade que se estende entre nós. Enquanto vai mordiscando o pão com manteiga que, entretanto, lhe foi servido, vai desfiando curiosidades engraçadas, que me salvam dos meus pensamentos. Os olhos engelham-se num sorriso jovem, enquanto conta que nunca sabe onde guarda as chaves, que anda sempre com uma fotografia de quando era jovem na carteira, que é para não se esquecer do quanto já foi bonita, que está a aprender a dançar e que teve a sorte de lhe ter calhado um par dez anos mais novo. Solto uma gargalhada e ela cala-se, olhando-me com atenção. O seu olhar é mole como água e eu sinto que ela vê mais qualquer coisa em mim. Não sei se me lê os pensamentos ou se é ela que mos dá. Mas tenho a certeza de que, da mesma forma que viu a longínqua alegria de penas no alto da árvore, lê agora a tristeza que me flutua no avesso dos olhos, como um subtil agitar de algas no fundo do mar.