sexta-feira, 3 de março de 2017

O coração do mundo



Numa tarde, a minha mãe apareceu-me no quarto, de sorriso fresco. Anda, vamos fazer uma visita, disse-me pegando-me na mão. Durante todo o caminho manteve-se em silêncio e nem ralhou comigo por eu ir a saltitar ao seu lado. Eu não sabia aonde íamos, mas também não perguntei nada. Percorremos a cidade durante meia hora, ou mais, não me lembro. Por fim, chegamos a uma rua de prédios velhos que dava para um descampado com tufos de dente-de-leão e lixo espalhado. Muito direita, a minha mãe tocou a uma campainha. A porta abriu-se com um estalido e subimos as escadas até ao segundo andar. Entramos numa casa fria e pouco iluminada que cheirava a mofo, como se alguém se tivesse esquecido de um cesto de roupa molhada durante dias. A senhora que nos abriu a porta pareceu-me muito velha. De costas curvadas, agarrava-se às paredes e eu pensei que bastaria uma breve aragem para a fazer cair. A minha mãe fez-lhe uma festa no braço e ela sorriu com o rosto todo. Depois, conduziu-nos a um quarto escuro. Na penumbra, vislumbrei um vulto comprido, tapado com um cobertor. Quando nos viu entrar, abriu os olhos e disse qualquer coisa que eu não percebi, mas a sua voz soou-me macia. A senhora muito velha encaminhou-me para a cozinha e ofereceu-me bolachas e um copo de leite com chocolate, onde grumos mais escuros boiavam como pequenas ilhas flutuantes. Numa gaiola junto à janela, dois periquitos de plumagem azul espreguiçavam-se. A cozinha tinha tudo no lugar, mas silêncio a mais. Aproximei-me da janela e encostei a testa à superfície fria do vidro. Queria ir ter com a minha mãe, mas qualquer coisa dentro de mim dizia-me que tinha de ficar ali. Passado muito tempo, ouvi a voz da minha mãe a chamar-me. Encontrava-se já à porta a despedir-se. Para a semana volto. Ainda vi o sorriso da senhora velha e as rugas cansadas à volta dele. Reparei que vestia uma camisola de cor indefinida que tinha uma mancha em forma de uva, ou talvez de uma lágrima. Descemos as escadas. A minha mãe apertava-me tanto a mão que me doeu durante dias. A rua cheirava a gasolina, a carros, a pó e ao movimento do mundo. Por essa altura, eu já sabia que cada coisa tinha um cheiro diferente. Mãe, quem são aquelas pessoas? Mãe! A minha mãe levou tempo a responder. Parecia imersa num silêncio que só ela conseguia ouvir. Por fim, parou e pousou as mãos nos meus ombros. O sol do fim da tarde enchia o mundo de luz inclinada e fazia-me piscar os olhos. Mesmo assim consegui vislumbrar uma tristeza afivelada ao seu olhar cor de avelã. Talvez para disfarçar, riu-se com um riso tenso, um riso que eu pressenti que se poderia transformar em choro. Aquelas pessoas são como se fossem da nossa família, porque precisam de nós. Depois, agarrando-me na mão, continuou a andar. E eu voltei a saltitar ao seu lado. Sabia que não falaria mais no assunto. Mas o seu silêncio pulsava-me nos dedos da mão. Hoje sei que silêncio era aquele. Era o coração do mundo a doer-lhe dentro do peito.


22 comentários:

  1. Miss Smile,
    Já andei para a frente e para trás nesta caixa de comentários, mas não consigo encontrar nenhuma palavra de jeito para aqui deixar. Só o silêncio parece adequado face à grandeza desse coração.

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    1. “Busquemos apenas
      As palavras repetidas

      As gaivotas mais altas
      Mais perdidas”

      Daniel Faria, Prefácio, in Uma Cidade com Muralha

      Obrigada, luisa.

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  2. faço minhas as palavras da luisa. é este o poder de algumas palavras: deixar-nos sem palavras.

    um abraço

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    1. “Houvesse um sinal a conduzir-nos
      E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores
      A incomparável paciência de procurar o alto
      A verde bondade de permanecer
      E orientar os pássaros”

      Daniel Faria, in Explicação das árvores e outros animais

      Um abraço, querida flor

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  3. Li, há tempos, num comentário/resposta a uma comentadora deste blog, em jeito de brincadeira, que a Miss Smile era muito 'melhor' do que a sua autora. Pode até ser verdade, porém, tem sido aqui, com a Miss Smile, que eu tenho ficado mais rica de bons sentimentos e de coração apaziguado.

    Obrigada, por isso, querida Miss Smile!:)

    Um beijinho e bom fim de semana.

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    1. “Uma mulher
      Vendia flores junto à muralha
      E as flores não eram de granito
      E as flores cresciam na muralha

      As gaivotas voavam sobre o vento
      E traçavam com o voo novas ruas
      E à beira da rua vinha a casa

      (E a casa crescia no menino)”

      Daniel Faria, in Uma cidade com Muralha

      Um beijinho, querida Janita, e um bom fim de semana
      [eu é que lhe sou muito grata!]

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  4. quando te leio sinto-me apaziguada com o mundo, com a vida.
    bem hajas (e ao Manel que não deixou que parasses de escrever)
    :)

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    1. “Puseram-nos rodilhas à cabeça
      Um modo antigo de nos virem corar”

      Daniel Faria, Explicação do cântaro, in Últimas explicações

      Um beijinho, querida Maresia
      [eu é que te tenho muito a agradecer]

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  5. eu ainda estou parada....

    (beijinho Miss Smile, admirado)

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    1. “Também os corações dos homens ardem
      Bebem vinho, leite e água e não apagam
      O amor”

      Daniel Faria, in Explicação das árvores e outros animais

      Um beijinho, Laura

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  6. Boa tarde, o silencio guardado no coração torna-o belo, com belos e enormes sentimentos, a solidariedade faz dos humanos pessoas melhores, aprendeu a lição?.
    AG

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    1. “Havia marinheiros no
      No país de Helena
      Que morriam ao pôr-do-sol

      E havia Helena que sonhava
      Fazer um dia tranças às ondas
      E um berço muito grande para o mar”

      Daniel Faria, Histórias do país de Helena, in Oxálida

      [Ainda estou a aprender. A solidariedade não se esgota numa só lição.]

      Uma boa semana, AG

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  7. Querida Miss Smile,

    Só consigo escrever que a sua mãe tinha um enorme coração.

    Beijinho comovido

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    1. “Uma lágrima de luz inacabada
      Bate contra o cais
      Sucumbe e jaz

      Uma gaivota alada inacabada
      Voa pelos olhos
      Se desfaz”

      Daniel Faria, Aurora, in Oxálida

      Um beijinho, querida Fê

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  8. Sei agora de onde vem tamanha grandeza de coração e de palavras Miss, é de família :) Beijinho

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    1. “e jogava o pião com Deus
      enquanto minha mãe estendia roupa
      e o meu pai mendigava o pão

      e minha alegria nesse tempo
      era muito próxima da dos meninos
      e de Deus que ganhava sempre

      e não sei quem perdi primeiro:
      o pião ou Deus
      apenas sei que Deus continua
      a jogar com outros meninos

      e que no Outono quando saio à praça
      nos sentamos e falamos muito
      do suave rodopiar das folhas”

      Daniel Faria, Infância, in Oxálida

      Um beijinho, GM

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  9. Agora percebo de quem herdou a filha tanta sensibilidade e tanta ternura.
    Tudo num coração sem tamanho.
    Beijos, boa semana

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    1. “Com os amigos aprendi que o que dói às aves
      Não é o serem atingidas, mas que,
      Uma vez atingidas,
      O caçador não repare na sua queda.”

      Daniel Faria, Pórtico, in A Casa dos Ceifeiros

      Um beijinho e uma boa semana

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  10. Há corações assim, capazes de doer com os que sofrem.

    Beijo embrulhado num abraço, querida Miss Smile :)

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    1. “Separei os braços
      E exilei o peito

      Doeu-me tanto
      Que não sei chorá-lo”

      Daniel Faria, Braços abertos, in A Casa dos Ceifeiros

      Um beijinho embrulhado num abraço de fita azul, querida Maria :)

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  11. Um coração enorme. Raro nos nossos dias. Adorei cá estar.
    Kis :=}

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    1. “Guarda a manhã
      Tudo o mais se pode tresmalhar

      Porque tu és o meio da manhã
      O ponto mais alto da luz
      Em explosão”

      Daniel Faria, in Do Inexplicável

      Bem-vinda, AvoGi :)

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