domingo, 26 de março de 2017

Palavras-estrela



Um dia, comecei a espalhar palavras reconciliadoras e apaziguadoras à minha volta. Sem me aperceber, ergui uma cerca protetora. Foi assim que me tornei guardiã de uma história que nem sequer tenho a certeza de ser minha. Neste círculo exíguo de histórias, que amontoo como pedras, escutei há dias umas palavras altas, mais altas que a cerca que ergui com afinco. Eram palavras que iam e vinham, inatingíveis e inapreensíveis, que a minha própria respiração despertava com vida e sentido. Acendiam-se e apagavam-se, mas permaneciam intactas. Tive a leve impressão de que eram aparentadas com as estrelas. Tentei agarrá-las, escrevê-las, mas todos os meus esforços foram em vão. Pareciam tão reais que me davam vontade de chorar. Pulsavam como a vida, como a morte. Cheiravam a musgo, a pinhas e a sangue de mulher. Eram palavras que não podiam ser verdadeiramente entendidas nem esquecidas. Continham a raiz de todas as palavras, o silêncio de todas as coisas. Não consegui decifrar-lhes o sentido, mas pressenti-as impressas no ramo de uma árvore, nas asas de uma borboleta, na carapaça de uma tartaruga, nas asas de um pássaro negro imóvel num céu prateado. Palavras puras, cujo mistério se alonga na distância das cordilheiras, na poeira dourada dos espaços interstelares. As que escrevo em folhas de esferovite são apenas poeira que chega com o vento.