quinta-feira, 16 de março de 2017

Salvar palavras



Todas as distâncias conquistadas criam solidão. Escrever é uma solidão que retenho com palavras, que me faz ser o que escrevo. São segredos que arranco ao silêncio. Sentidos que entrelaço em palavras e se alojam em raízes de metáforas - na curvatura de uma lua pálida ou no fundo do mar. Há palavras que me recordam o chamamento das aves. Cantam notas altas como se soubessem o que é a felicidade. Há palavras invisíveis em sombras de sal. E há palavras que têm vidros incrustados que me rasgam as mãos. Mas todas me sabem ler o coração. Por isso, salvo-as. Para que elas me salvem a mim também.


26 comentários:

  1. nã sei se salvo palavras, mas elas salvam-me a mim praticamente todos os dias... as que leio aqui e por essa bloga são como botes salva-vidas, oscilando num mar bravo.

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    1. É muito bonita essa imagem, Manel.

      Clarice Lispector dizia “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria vida.”

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  2. ... pela importãncia das ditas, com honras a quem as trata com saber e delicadeza, é tempo de uma "confraria das palavras" - que termine de vez a "confusão" do acordo ortográfico. Por mim, salvo TODAS as palavras. "(...) Para que elas me salvem a mim também". Parabéns pelo texto

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    1. Eu não sou apoiante do AO90 que, ainda por cima, falhou redondamente o seu objetivo de uniformização do português nos cinco cantos do mundo. Utilizo-o por motivos profissionais e também aqui no blogue para simplificar a minha vida. Aliás, neste blogue sempre se escreveu com o AO90. Como lhe dizia, também não concordo com ele, mas sou uma pessoa pragmática e não creio que seja possível inverter a situação. Para os meus filhos, por exemplo, o AO90 é a única realidade que conhecem. Sei que o acordo privilegia o critério fonético em detrimento do critério etimológico, e reconheço que não honra a nossa variante. No entanto, este mesmo acordo afeta um número reduzido de palavras, creio que 1,6%. O rigor da nossa língua obedece também a aspetos sintáticos e morfológicos e esses são, como sabemos, também muito negligenciados. Portanto, uma língua pode ser maltratada de muitas maneiras.

      Obrigada, Carlos. Votos de um dia feliz :)

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    2. Concordo com o que escreve. A minha "confusão" (?) reside na ausência de unanimidade, queno era suposto que existisse - em Portugal e nos paises lusófonos. Como o fim de semana se aproxima, desejo que o viva com a melhor das disposições :-)

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    3. Precisamente. O objetivo do AO90 falhou completamente.

      Um bom fim de semana para si também :)

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  3. eu vivo numa constante guerra com as palavras, por isso vou e regresso. a miss smile já sabe que esta menina é uma desnaturada. :) quanto às suas apenas sei que tornam o meu mundo mais bonito. um muito obrigada. :)

    deixo-lhe um beijo no coração. :)

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    1. Muito obrigada, querida Alaska. :)

      As palavras são uma espécie de arqueologia. Por baixo delas, há uma vida secreta, por vezes, clandestina. Para não serem condenadas ao desterro, têm, por vezes, de saltar por cima dos nossos juízos. E isso é um processo muito difícil.

      Um beijinho, Alaska (e para mim não é “desnaturada”. É linda!)

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  4. Razão tinha o velho safado ao dizer que as palavras que escrevia é que o protegiam da completa loucura.

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    1. Bukowski e as palavras como descontinuidade de um quotidiano pardacento e sempre igual, que pode levar à loucura.

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  5. As palavras, para mim, estranhamente, depõem eternidades ao mesmo tempo que ao escrevê-las as eternizo, derramando-as em palavras, mato-as aos poucos em mim. As palavras dos outros, dos outros que gosto de ler, salvam-me da escuridão, dia dias, mergulham-me noutros céus. Mas sim, se calhar as palavras, umas e outras, são o que sou - sou o que escolho ler e sou o que tenho de escrever.
    Bom dia, Miss smile:)

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    1. As palavras que escrevemos servem para apanhar a realidade sempre fugidia. Quando falamos, desagregamo-nos, desprendemo-nos de nós, porque reagimos ao que vem de fora. Quando escrevemos, centramo-nos, recolhemo-nos, retemos o que vem de dentro. Assim, tornamo-nos no que escrevemos. Salvar palavras, escrevendo-as, é salvar um pedaço de nós ao fluir contínuo do tempo. Por isso, sim, quando escrevemos, eternizamo-nos.

      Uma boa tarde, Olvido :)

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  6. E, usando a frase da minha mãe: palavra fora da boca é como pedra fora da mão. Cuidado com as palavras.
    Kis :=}

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    1. Concordo plenamente consigo, AvoGi. As palavras exigem contenção e responsabilidade. E agora deu-me uma ideia para um post! Obrigada :)

      Um beijinho :)

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  7. Se não fossem as palavras, querida Miss, não teria aqui mais de 500 cartas que encerram memórias do meu Amor tão singular.
    Bjinho

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    1. No dizer do poeta, “as cartas de amor são sempre ridículas”. Por acaso, não subscrevo a “boutade” pessoana. Ainda bem que tem as suas cartas de amor, querida Virgínia, esse fogo sem fim que respira no segredo de toda uma vida. O amor encontra sempre as palavras certas. E são essas que nos salvam.

      Um beijinho e obrigada por ter vindo

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  8. Salvemos as palavras para que elas nos possam salvar a nós. :)

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    1. Solidariedade entre pessoas e palavras :)

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  9. as palavras são matéria viva, tocam, salvam, matam, têm cheiro, aproximam e afastam.
    escrevo porque transbordo, e escrevo conforme transbordo, de rajada :)
    obrigada, Miss, por me fazeres olhar para dentro :)
    beijo

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    1. Nota-se que as tuas palavras são orgânicas. Têm cheiro, textura e vida. E eu gosto muito delas :)

      Um beijinho

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  10. Parei para dizer que gosto muito das palavras que salvas por aqui neste blog. Espero vir aqui mais vezes ver-te salvar palavras :)

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    1. Muito obrigada, conta corrente.

      Bem-vindo :)

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  11. Olá, olá, minha querida e doce Miss Smile:)
    As palavras são um tipo de purga que nos leva e exercitar os nossos medos, as nossas angústias e fragilidades, para além de nos levar a comunicar e interagir com os outros, que falam a nossa mesma linguagem.
    Mas lamentavelmente, este processo não produz eficácia no cidadão comum....
    Leio e acompanho quem me enche as medidas da alma, em modo silencioso e abstenho-me de comentar, sinto-me tão inútil e tão insignificante que sinto que nada tenho para vos acrescentar.
    Beijinho com carinho e estima.

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    1. Querida Sandra, como é bom reencontrar-te aqui! Tenho tido muitas saudades tuas (aliás, escrevi isso mesmo há pouco tempo no teu espaço). Eu compreendo esse silêncio. Por vezes, sinto o mesmo e também acho que não tenho nada a acrescentar ao que já foi escrito. Mas quero que saibas que fico muito contente quando comentas. Eu sei que em muitas coisas estamos em sintonia, mas, acredita que a tua sensatez e perspicácia acrescentam sempre algo de novo ao que escrevo. Pelo menos, para mim. :)

      Um beijinho com carinho e estima.

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  12. Gostei sobremaneira desta belíssima prosa poética
    que medita sobre a génese da escrita criativa e o
    valor de todas as palavras...
    Beijinhos, querida Smile.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Obrigada, querida Majo. As palavras podem servir-nos de coordenadas no mapa da nossa procura.

      Um beijinho

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