sábado, 22 de abril de 2017

Anzol



Há muitos tipos de dor e, no entanto, cada dor é igual a si própria. A C. conta-me que a sua dor é uma onda gigante que continua a ir e a vir, mesmo quando já passou muito tempo. É uma mão impossível de deter, uma bofetada que marca para sempre o rosto com a ponta dos dedos. É um cabo de aço que se enrola nas mãos e nos braços, como um réptil pré-histórico. Uma faca que mutila, firme e cintilante, na calada da noite. Não tem voz humana. É escura e imprevisível e, quando enxotada, afasta-se apenas por instantes, rindo às gargalhadas. Deixa um rasto de ossos partidos e tratados, manchas negras e douradas na pele latejante, uma língua esmagada e um coração silenciado. O que fica, depois de tudo terminar, quando termina, é uma pedra dentro do peito, às vezes, um muro de tijolo, e uma dignidade de ombros rasgados, virada ao contrário, caída no chão. A C. já não consegue chorar, porque ninguém desce igual de uma cruz. Mas choraria, se chorar ajudasse. Tento persuadi-la a reagir. Mas ela não pode. E eu sei que ela nunca mais ousará desejar a proteção dos braços de um homem. Há estragos que ficam irremediavelmente gravados na memória. Trespassam a existência como um anzol que se agarra à pele, puxando-a interminavelmente para um abismo sem fundo.