16/04/2017

Mais do que uma meia de leite e uma torrada



Ontem, quando entrei na frutaria, o senhor António veio ao meu encontro e disse-me, com a voz embargada pela emoção, que o senhor Joaquim tinha morrido. Recordo-me de um senhor de idade, um pouco curvado, com quem me cruzava por vezes no corredor das hortaliças. Tinha um ar frágil e solitário e uma brandura que o fazia amigo de toda a gente. O senhor António conta-me que a Dona Amélia, a senhora do café ao lado da frutaria, está destroçada, que já se fartou de chorar. O senhor Joaquim era seu cliente habitual. Ia sempre lá tomar o pequeno-almoço. E nem precisava de pedir, porque ela já sabia o que ele queria - uma torrada com pouca manteiga e uma meia de leite escura. Ninguém sabia que ele estava doente. O senhor Joaquim não tinha ninguém.
Termino as minhas compras e entro no café da Dona Amélia. Encontro-a pálida, de olhos inchados, a limpar o balcão. Cumprimenta-me com um sorriso delicado e serve-me um café pingado, como eu gosto àquela hora da manhã. Logo depois, circunda o balcão para ir ao encontro de um casal de idosos que acaba de entrar - ela a amparar-lhe o cotovelo e ele a apoiar-se numa bengala. Venham para aqui. A vossa mesinha à janela está livre. Assim sempre apanham um pouco de sol. Então, é o costume, não é verdade?, ouço-a dizer, puxando duas cadeiras.
E isto faz-me pensar no número de pessoas que todos os dias pede uma torrada e um café, pedindo mais do que palavras conseguem dizer. Poucas saberão compreendê-las e ouvir o que mais ninguém vê. A Dona Amélia sabe. Disso tenho a certeza. Sabe juntar palavras com entrelinhas, interpretar silêncios abaulados, porque os silêncios não falam, mas têm significados. A Dona Amélia sabe pressentir as vidas que, depois do pequeno-almoço tomado, se empurram por trás de portas fechadas. Sabe ler o movimento das dores e das ausências que se ergue nos olhos alheios, como a crista de uma onda, porque sabe também ver a beleza que se queda no mundo. Estou certa de que faz parte do grupo de pessoas que, no meio de uma multidão apressada, se detém para contemplar a andorinha pousada no fio da eletricidade, se alegra com o pequeno raio de sol que faz sobressair o vermelho dos telhados, se desvia para não pisar a flor minúscula que cresce entre as pedras da calçada. É bom saber que há pessoas que não servem apenas pequenos-almoços, que não se limitam a gostar das pessoas que frequentam o seu café. É bom saber que há pessoas como a Dona Amélia que amparam a superfície recurva do mundo.