20/04/2017

O mundo tem poesia a menos



São quatro da tarde e tocam-me insistentemente à campainha. Apareço à porta de pantufas tão condignas como qualquer outro calçado feminino. É a minha vizinha que, depois de um breve cumprimento, me irrompe pela casa dentro. Confesso que não me recordo de alguma vez ter implementado tal intimidade. Traz um avental às flores preso à cintura e uma camisa branca cheia de folhos. Não sei explicar, mas há ali uma incongruência qualquer, que me faz lembrar um merengue branco gigante.
- Então, por onde tem andado que eu não a tenho visto?
Perante tamanha subtileza psicológica, conto até vinte e faço um esforço dantesco para não lhe dar uma resposta torta. Uma das coisas de que mais me arrependo na vida é a de nunca ter cultivado um sentido de resposta pronta.
- E a vizinha por onde é que tem andado? É que eu também não a tenho visto! – acabo por perguntar, disfarçando a minha impaciência.
- Ai, nem imagina! – solta um suspiro tão grande que chego a pensar que vai ter um ataque cardíaco.
E sem cerimónias, ali, na minha própria casa, começa a desfiar um rosário de queixas sobre a vizinha, os tapetes e os objetos voadores do quarto andar. Sublinha palavras irritadas com meneios veementes e eu concentro-me no tique que lhe crispa compulsivamente uma das faces entre o lábio e o maxilar inferior, enquanto penso que o mundo tem poesia a menos. Desagradada com o rumo que tomou a conversa, tento fugir dela com todas as minhas forças. A minha vizinha, cada vez mais inflamada, bate com a palma das mãos nas coxas, numa espécie de Haka, uma intimidação antes do jogo. Mas eu não quero jogar aquele jogo. Na verdade, eu não quero jogar jogo nenhum. Amarfanho o puxador da porta e penso nas várias formas de me escapulir daquela situação amotinada. Ainda por cima, estou de pantufas. Sou um ser mais indefeso quando estou de pantufas. Experimento a desconfortável estranheza de me sentir refém na minha própria casa. Biju aparece subitamente. Ridiculamente, penso que me vem salvar, mas não. Passa por mim, determinado, em direção ao sofá, acenando-me com a sua liberdade de gato. Não aguento mais. Tenho de entrar no jogo. Disposta a tudo para me desembaraçar da vizinha, tenho então um lampejo de génio. Interrompo-a para dizer que bebi muito chá durante a tarde e que estou aflita para ir à casa de banho. Como se tal não bastasse, acrescento que tenho uma bexiga pequena, arruinando de vez a minha reputação e adicionando um novo assunto de debate à próxima reunião de condomínio. Mas a verdade é que a minha atabalhoada desculpa funcionou. Precisamente, porque o mundo tem poesia a menos.