quarta-feira, 31 de maio de 2017

Desencontros



Um dia, precisei muito de uma pessoa. Acerquei-me dela em silêncio, sustendo a respiração, engolida pela minha própria angústia. Ainda antes de lhe falar, já sabia que não estava lá ninguém. Parecia vazia como uma concha. Perguntei-me em que esconderijo poderia estar. Porque é que nos desencontrávamos tantas vezes? A seguir, abordei-a com palavras suaves, mas insistentes, como se batesse a uma porta, sentindo o estalido forte da madeira nos ossos da mão. Mas nenhum halo de luz veio lá de dentro. Recolhi-me na minha própria dor orlada de prata e continuei durante meses a percorrer mentalmente ruas invisíveis, a subir andares espiralados até àquela porta, porque todo o amor tem uma morada. Até que um dia cortei a cortina que separa o sonho do despertar, e bati com a porta para sempre, com um som seco como um tiro, terminal, que quase me ensurdeceu o coração. Depois, lancei a chave ao rio e, arrastada pela corrente, via-a desaparecer, correndo para o oceano, perdendo-se no futuro, onde eu ainda não estava, onde eu era ainda ninguém.

Essa pessoa reapareceu um dia na minha vida, mas a chave estava irremediavelmente perdida. Nada volta nunca ao começo, porque a verdade é que renascemos de vários lugares. A nossa história é feita de incontáveis desencontros longínquos que reescrevemos na curva das margens do presente. Mas a água transborda sempre e embebe a terra. E o que aqui vos escrevo será também, em breve, uma mancha de tinta perdida na torrente impetuosa que corre para jusante.