quarta-feira, 28 de junho de 2017

A única flor que se ergue no prado



Às vezes, pergunto-me como viver sem pressa e, contudo, beber cada momento com urgência. Como encontrar um fogo, por mais trémulo que seja, na vida de todos os dias? Como escapar ao automatismo das tarefas diárias, tantas vezes repetidas? Ao padrão dos compromissos mecanicamente anotados na agenda, como se a vida pudesse ser passada para o papel? Eu, que tantas vezes confundo agitação com vida, que passo demasiado tempo fora de mim, atordoada com burburinhos exteriores, esqueço-me que a consciência mais não é do que o contacto comigo própria. E sem ela não posso ser tão livre como gostaria. Saber que estou, aqui e agora é, no fundo, ir buscar a sabedoria ao fundo da simplicidade de cada dia. Porque não há dois dias iguais. É colocar punhos de renda no presente e deixar que ele me abrace. É ver a única flor que se ergue no prado. É saber transformar a vida num agora prolongado. Porque uma vida, enquanto não é vivida, é apenas uma vida em potência. É uma narração dada por outros, mas não escolhida por mim.


As histórias de amor



Todas as histórias de amor são curtas, mesmo quando duram uma vida inteira.


terça-feira, 27 de junho de 2017

A tocadora de harpa



Chegou fulgurante, com perfume de festa, empinada nuns sapatos de saltos vertiginosos, apesar da artrose que lhe devora os joelhos e lhe dificulta o andar. Toda a vida se calçou assim, explica, e não seria agora, naquele importante almoço, que enfiaria os pés numas sapatilhas ortopédicas. É certo que já não era a mesma. Estava mais volumosa, mais pesada, e o cabelo, agora tingido de vermelho-escuro, perdera a exuberância dos outros tempos. Mas os olhos, muito verdes, muito pintados, conservavam a mesma luz a tremeluzir no fundo. O tempo não lhe roubara o fulgor e a vontade de abraçar a vida. Ainda agora, com a idade que tinha, não passava despercebida. Desde sempre se habituara a atrair olhares por onde passava. Os homens diziam-lhe que bastava um breve olhar seu para os devolver às estrelas, mas ela encolhia sempre os ombros e ria, dizendo que não se lembrava de nada. Mas lembrava-se, é claro. Sabia-se um ideal de beleza. Um pintor amigo da família chegara a pedir autorização ao pai para a retratar na sala de estar, na presença da mãe. Depois de vários pedidos insistentes, o pai acabara por aceder e ela ainda hoje conserva esse quadro de cores vibrantes pendurado na sala. Vestida de sevilhana, de cabelo preto, olhos verdes rasgados, maçãs do rosto salientes, era a personificação da beleza arrebatadora.
Agora circula aos sorrisos pelas mesas, interpelando primos e primas, vindos de tão longe, que não vê há mais de quinze anos. Sente uma imensa alegria por esse reencontro de vários mundos, geograficamente díspares. Na idade de brincar, fazia de mãe de quase todos. E fala e ri e gesticula. Nos movimentos do corpo, pressente-se as memórias a subir dentro dela. Há partituras que nunca se esquecem. Afinal de contas, é o reportório de uma vida. Inclina a cabeça para trás e desprende gargalhadas. Abraça, embala, comove-se, chora. A melodia começa por entre as memórias de um tempo e de um espaço distantes, subindo e descendo no peito, como escalas. De braços e coração abertos, poros dilatados, alma afinada, toca, com a ponta dos dedos, a corda sensível dos seus interlocutores, pondo-a a vibrar. Contam-se então histórias sofridas, relembram-se os mortos, encolhem-se ressentimentos e divergências, lamentam-se doenças e feridas, revivem-se alegrias e deslumbramentos, evocam-se os indefiníveis meios-tons da vida. Nada abafa as memórias contadas pelo bater do coração. A sensibilidade é uma música que cada um canta para dentro de si. E todos são feridos pela nostalgia, que restitui ao momento o que o tempo cobriu. Há mãos que apertam outras, há palmadas nas costas, há sorrisos lentos a crescerem na boca. Tocados pelo tanto que é a sua vida, abraçam-se, demonstrando que os sentimentos podem ter, simultaneamente, a força hercúlea de uma rocha e a fragilidade dos laços de amor.