quinta-feira, 1 de junho de 2017

A estranha generosidade da vida



Chegam à piscina de mãos dadas e sorriso a brilhar nos olhos. Ele é alto e magro. Ela é baixinha, torneada, e tem um rosto em forma de coração. Trazem toucas iguais, azuis, como os olhos dela. Pelo que sei, são ambos viúvos. A duração do tempo e a doença não lhe roubaram, a ele, o fulgor do olhar. Um coágulo de sangue entupiu-lhe uma artéria e, desde aí, nunca mais voltou a ser o mesmo. Tem um músculo facial distendido, a fala enrolada e uma perna que arrasta ligeiramente a cada passo. Mas no pensamento dela, que o conhece há escassos meses, não há história. Foi assim que o conheceu, foi assim que gostou dele. Por ele, inscreveu-se nas aulas de natação, por ele, quis aprender a nadar.
Com um leve roçar de lábios, despedem-se à beira da piscina. Ela entra na água e junta-se ao grupo da natação. Ele encaminha-se para a outra extremidade da piscina, onde decorre a aula de hidroginástica. Durante a aula, e sempre que vê o rosto dela virado de esguelha para ele, sopra-lhe um beijo no ar que ela, inclinando a face no ângulo certo, apanha com mestria, saboreando-o com uma alegria que não esconde dos olhares curiosos. E até agora, que eu tenha dado conta, ainda nenhum beijo caiu à água. Os presentes – os da natação e os da hidroginástica – sorriem e enternecem-se com aquelas demonstrações espontâneas de ternura, desprendendo risinhos, desfiando comentários, alguns deles maliciosos. Claro que eu também não fico indiferente. Mas mais do que a paixão, a veneração pela amada, leio-lhe no olhar a gratidão por aquela sorte inesperada que se transformou no centro da sua vida.