quarta-feira, 28 de junho de 2017

A única flor que se ergue no prado



Às vezes, pergunto-me como viver sem pressa e, contudo, beber cada momento com urgência. Como encontrar um fogo, por mais trémulo que seja, na vida de todos os dias? Como escapar ao automatismo das tarefas diárias, tantas vezes repetidas? Ao padrão dos compromissos mecanicamente anotados na agenda, como se a vida pudesse ser passada para o papel? Eu, que tantas vezes confundo agitação com vida, que passo demasiado tempo fora de mim, atordoada com burburinhos exteriores, esqueço-me que a consciência mais não é do que o contacto comigo própria. E sem ela não posso ser tão livre como gostaria. Saber que estou, aqui e agora é, no fundo, ir buscar a sabedoria ao fundo da simplicidade de cada dia. Porque não há dois dias iguais. É colocar punhos de renda no presente e deixar que ele me abrace. É ver a única flor que se ergue no prado. É saber transformar a vida num agora prolongado. Porque uma vida, enquanto não é vivida, é apenas uma vida em potência. É uma narração dada por outros, mas não escolhida por mim.