sábado, 3 de junho de 2017

Mnemónica do mundo



Se um dia me dissessem que, assim como aconteceu ao meu pai, eu iria ficar irreversivelmente cega, presa a uma escuridão imóvel e alta, pediria com todas as minhas forças que me fosse concedido tempo para preparar o caminho. No tempo de visão que me restasse, fecharia os olhos e tocaria em tudo o que agora me escapa. Aprenderia a compreender o que as mãos me dizem. Com a ponta dos dedos, aqueles que passariam a ser os olhos da pele, reaprenderia contornos, rostos, texturas, e a delicada essência das coisas pequenas e imensas. O toque de uma pétala a flutuar-me na palma da mão, a penugem macia de uma pena, a lisura de um seixo apanhado na praia. Aprenderia a escutar o frémito, a respiração, o balançar do corpo dos meus filhos. Estenderia os braços e a paciência dos gestos demorados ensinar-me-ia a segurar nos dedos a alegria dos que amo. E antes que uma mancha escura me escondesse o sol, aprenderia um livro de cor. Não para que este me salvasse, ou para que eu o salvasse a ele como no livro de Ray Bradbury, mas para que o mundo não se perdesse em mim.