sexta-feira, 30 de junho de 2017

Solidariedade masculina



A população do café rejuvenesceu com o início das férias escolares. Em quase todas as mesas há crianças que tomam o pequeno-almoço com os avós. Na mesa ao lado da minha, há também uma avó, um avô e um neto. Este deve ter cerca de oito, nove anos e parece contrariado. A avó fala-lhe com uma voz monocórdica que, por vezes, revela um ligeiro tremor. Diz-lhe que, ao fim do dia, para o jantar de família, terá de vestir uma camisa. O neto franze a testa e abana a cabeça em discordância. Cruza os braços, zangado, e insiste em levar a roupa que tem vestida, uns calções de ganga e um pólo azul. O avô mantém-se à margem, fixando o galão, de queixo metido para dentro, aparentando uma calma circunspecta. A avó, conciliadora, mas firme, faz uma festa no braço do neto, dizendo-lhe que gosta muito dele, que gosta também muito de lhe fazer as vontades, mas que, desta vez, não será possível, porque há regras, há códigos que devem ser respeitados. Depois, retira o porta-moedas da mala e dirige-se ao balcão para efetuar o pagamento. O neto, aproveitando o breve momento a sós com o avô, não perde oportunidade de o elucidar.
- Oh, avô. A avó é uma mandona! E tu és a principal vítima!