domingo, 2 de julho de 2017

Como viajantes perdidos




O amor rouba-nos a biografia. É como se, antes, não tivesse existido ninguém, nunca tivéssemos beijado, abraçado, estado com outro corpo. O amor separa-nos do resto da nossa história. Exila-nos do passado. Deixa-nos suspensos no tempo, presos ao fio de um nome, como um balão enlaçado nos troncos de uma árvore. O tempo diferencia-se apenas pela presença ou pela ausência do ser amado. A vida torna-se espera - espera do próximo encontro -, como se estivéssemos debaixo de água, onde cada movimento exige um esforço. Como que por milagre, voltamos a ser um corpo que nunca foi tocado, uma alma branca por escrever, uma vida por encetar. Amnésicos, atemporais, imersos na nossa própria subjetividade, vagueamos pelo mundo como estrangeiros. Compramos jornais que não lemos, ouvimos conversas que não escutamos, olhamos para coisas que não vemos. Abrimos um livro e as letras, indecifráveis, parecem-nos formigas espalmadas nas páginas. O que buscamos são apenas correlações: músicas, filmes, poemas, metáforas, símbolos que nos falem de amor. Tudo o resto são trivialidades, juízos, opiniões inúteis, coisas desapaixonadas. Estamos no mundo e não estamos. É como se um tilintar distante nos desviasse constantemente a atenção, como se pequenos anzóis agarrados à pele nos puxassem para o sítio onde não estamos, mas onde gostaríamos de estar. Estamos sempre de partida, apressados, sem tempo. Toda a energia se consome a sonhar, a imaginar, a esperar pelo ser amado. Desprovidos de mapa, relógio ou bússola, somos viajantes perdidos, com um pé no mundo e outro numa jangada, que, num oceano secreto, ruma em direção a um destino que só nós pressentimos.

[Baseado no livro O amor é uma droga dura de Cristina Peri Rossi]