domingo, 30 de julho de 2017

O futuro



A A. pertence a uma geração de heróis invisíveis. Vejo-a caminhar vagarosamente pela casa arrumando o que está fora do sítio. Enquanto passa a ferro, assobia alegria ou uma qualquer melodia que dança dentro dela. Tem a sola do sapato direito mais gasta do que a do esquerdo, as unhas pintadas de vermelho vivo e a realidade na ponta dos dedos. Manuseia-a com o mesmo à-vontade com que vira a roupa do avesso. Às vezes, o toque do telemóvel desfaz-lhe a melodia. E eu, não querendo escutar as conversas, apercebo-me de que a sua vida é difícil. Muito difícil. Mas ela, tal como faz com a roupa, alisa-a e endireita-a. Um dia, atenta à minha voz que arrastava uma tristeza fininha, pousou o ferro e abriu os braços para me oferecer um abraço. Deixei-me comover com a simplicidade do gesto, com o seu sorriso branco como a aurora, e enterrei a face no seu ombro, na suavidade da bata que cheirava a lavado e a coisas de mãe. Nunca esqueci aquele abraço. Estava na minha própria casa, mas foi ali, naqueles braços, que me senti acolhida. Ficamos algum tempo assim as duas, sozinhas na cozinha, sozinhas no verão, nos sonhos, nas adversidades. Sozinhas em todas essas coisas. E sozinhas em cada uma delas. Duas mulheres, uma só sombra no chão branco de uma casa perto do mar.
Perguntou-me, Porque chora? E eu respondi, Choro porque não sei aquilo em que vou tornar-me. O sol poente que entrava pela janela impregnava tudo de luz e os seus olhos castanhos ficaram tão claros que, dir-se-ia, podiam ver o mundo à transparência. O futuro é uma coisa que está mesmo à frente dos olhos e é por isso que mete tanto medo. O que brilha ao longe, é baço ao perto, disse. Desligou o ferro, puxou uma cadeira para que me sentasse e sentou-se ela própria noutra, diante de mim. Depois, começou a falar-me com uma voz baixa, abrindo as palmas das mãos como uma flor. O medo é sopro, respiração, vida. Mas é preciso ter coragem. A coragem não é apenas fazer frente à incerteza. Não é empurrar com todas as forças a bola pesada que se instala em cima do peito. A coragem é aceitar o que acontece e o que não acontece. Aceitar, não negar. É saber aceitar que se tem medo. Sim. A coragem é aceitar que se tem medo de ter medo. E é viver apesar de tudo. 
Não me lembro se ela me disse tudo isto assim, se o li nos seus olhos ou se sou eu que o invento no momento em que escrevo. Há muitas coisas que pensamos ter ouvido ou ter vivido e que nunca o foram. Mas a A. tem uma confiança serena em si própria e tudo o que diz, e não diz, tem para mim um significado profundo, quase espiritual. Foi com ela que aprendi, naquele fim de tarde, que o futuro faz parte da memória de todos nós.