quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Um livro para férias



Um livro para férias não deve ser escolhido. O que se escolhe serve à personalidade, e as férias são o pretexto para sermos impessoais, fazer o que muitos fazem, ir para onde muitos vão. Pegue num livro que não pese mais de 200 gramas e leve-o consigo. Leia três páginas, esqueça-o na gare ou no banco das termas, na praia ou no restaurante, e aí, sobretudo, aí, tenha a certeza que é o bom livro para férias; se você não tiver pena de o ter perdido.


Agustina Bessa-Luís, Caderno de Significados


domingo, 6 de agosto de 2017

Como um pássaro que nos escapa



A luz filtrada pelas cortinas verde-água escorre pelas paredes cor de âmbar. Junto à janela, uma poltrona imponente e usada acomoda a minha mãe que se deixou derrotar pelo sono. Sobre a cómoda escura está uma jarra de rosas pálidas que a minha tia colocou de manhã. Lá fora, ouve-se um som de sinos. Estou sentada numa cadeira ao lado da cama onde está deitada a minha avó. A minha avó já não tem palavras, já nem sequer tem olhar. Passa os dias de olhos fechados. Penso que deixou de querer abri-los. Afastada de nós e de tudo o que foi um dia, já quase que não passa de uma recordação. Parece que dorme ou que se esqueceu de tudo, não sei. A nossa vida é um rodopio quieto à sua volta. Todas as manhãs, as mãos hábeis das filhas despem-na, lavam-na, vestem-na outra vez, alimentam-na. Pegam nela ao colo para mudar a roupa da cama. Já não pesa. Tornou-se leve como uma criança, que não gosta de comer. O relógio de parede rói as horas dos dias, e o corpo da minha avó escorrega lentamente para um lugar desconhecido, para um silêncio cada vez mais espesso. A minha avó tem agora as palavras coladas ao céu-da-boca e esquece-se de nós. E nós, todos os dias morremos mais um bocadinho para ela. E, contudo, foi ainda há tão pouco tempo que eu, de joelhos sujos e arranhados, corria para ela para contar a surpresa de um louva-a deus ou os pesadelos da noite que ela prontamente afastava, acariciando-me as costas. Eu cresci, e a minha avó envelheceu. Parece simples, mas não é. Não compreendo como é que se desliza tão depressa para tamanha ausência.
Uma moto passa, roncando direito à vida. Deixo a penumbra fresca do quarto virado a nascente, onde o verão parece adormecido. Saio para a explosão solar do dia. Vejo o muro caiado, as sombras das árvores espalhadas como frutos tombados, as flores vermelhas, laranjas e amarelas a brotar ao sol, o atalho florido que conduz às colmeias. Tudo está como sempre esteve. Só os meus olhos é que estão magoados.
Volto para dentro. A minha mãe ainda dorme, a respiração regular, o corpo exausto, caído sobre um dos braços da poltrona. Aproximo-me da avó e aconchego-lhe a roupa da cama. Com a mão, como se desfizesse ondas invisíveis, aliso a colcha dos lados, em redor dos contornos das suas pernas magras. Não chego às marés que lhe estão nas profundezas do coração. Na sua atual vida submarina, tão fora do meu alcance, imagino uma pirâmide de conchas - perdas, alegrias e dores antigas -, umas dentro das outras, e lá no fundo, o coração da minha avó a pulsar como a carne húmida de um molusco. Aperto-lhe a mão gelada com força, mas, na verdade, eu é que estou a precisar de ânimo. Pego no livro pousado sobre a mesa-de-cabeceira, apinhada de medicamentos. Começo a ler-lho em voz alta. Quero continuar a pensar na minha avó como alguém que está vivo. Quero que ouça a minha voz, quero manter-me viva para ela. Não vou deixar que o fio da nossa história se rompa. Todos os dias lhe repito que gosto muito dela. Repreendo-me por não lho ter dito mais vezes, quando ela era ainda ela. Perto do fim, quando tudo nos parece irremediavelmente perdido, achamos sempre que não amamos o bastante, que não dissemos todas as palavras que precisavam de ser ditas. A proximidade que tivemos não nos parece suficiente, como se tivéssemos caminhado no mesmo passeio, mas do outro lado da rua. É difícil aceitar que o amor é algo simultaneamente perto e longe.
Agora que a minha avó já morreu há muitos anos, consigo ver mais perto. É preciso tempo para aceitar que existirá sempre demasiadas coisas que não soubemos viver com perfeição. Provavelmente, quase tudo. A vida, aquela que anda colada a nós, assemelha-se a um pássaro que nos escapa. Ainda assim, acabei um dia por aceitar que eu e a minha avó fomos, juntas, tão longe quanto nos era possível ir.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Fala com estranhos



O senhor não terá menos de setenta anos, mas parece mais novo. Senta-se na mesa ao lado da minha e dá-me os bons-dias com uma voz surpreendentemente jovial. Também o olhar, que pousa com bonomia no meu, parece intocado pelo passar do tempo. Tem um brilho que apaga a sombra da manhã que ainda desponta. Simpatizo imediatamente com ele e nem me importo de adiar a leitura do livro que trouxe comigo para o café. Também ele deixa o jornal dobrado sobre a mesa. Gosto de falar com estranhos. É certo que as conversas são como os melões. É preciso encetá-las primeiro para saber se são boas. Não basta olhar para a pessoa, tentar adivinhar-lhe os pensamentos e as intenções, sondar-lhe as disposições do momento. Na maioria das vezes, enganamo-nos. Somos demasiado apressados a completar círculos e estabelecemos com frequência ligações falsas. A verdade é que a potencialidade de uma conversa é algo que fica para além da fronteira do que é cognoscível. E ao ignorar a oportunidade de uma conversa assim espontânea, podemos estar a recusar ouvir o que precisamos de ouvir, ou de dizer, naquele dia. Conversar com um estranho pode ser uma coisa bonita de se viver, porque não tem história. É uma espécie de soleira onde duas vidas se encontram para conversar, antes de voltarem a entrar nas respetivas casas. É um estar por estar, uma confiança sem porquê. Uma vez, houve uma senhora numa gabardina cinzenta, demasiado grande para a sua constituição, que me abordou numa rua da Alemanha. Andava a oferecer livros. Sorria para os transeuntes apressados e dava um livro aos que lhe retribuíam o sorriso. Estava de partida para o seu país, a Roménia, e não podia levá-los todos consigo. Mas estava certa de que ficariam em boas mãos, porque, disse-me ela, quem sabe valorizar o sorriso de um estranho, saberá também estimar o livro que lhe foi oferecido por este. A mim ofereceu-me Der Besuch der alten Dame de Friedrich Dürrenmatt e eu nunca me esqueci da sua generosidade. Sim, porque estas conversas não são só lugares de encontros e partidas. São também lugares de regresso.
Há conversas leves como a alegria, tristes como declives delicados, e consoladoras como o interior de uma igreja em pleno verão. Há conversas que abrem memórias e que reavivam o estrondo de uma paixão. Há outras que nos deixam os lábios em ferida por não sabermos o que dizer, como a daquela mãe que se sentou ao meu lado no metro e que, entre três estações, com a mão pousada na manga do meu casaco, me confessou que a única coisa que a prendia à vida era o filho que sofria de uma doença mental crónica, e que ela visitava todas as tardes. Lembro-me também daquele homem que, à porta de um bar, sob a luz cor de laranja de um candeeiro, se aproximou de mim e me disse, de olhos molhados, vou esquecê-la, vou esquecê-la, esquecê-la, esquecê-la… sabes, se repetir estas palavras durante toda a noite, talvez amanhã comece a acreditar nelas. E houve também a mulher gorda que começou a falar comigo na fila dos correios e que me disse, com um murmúrio de chuva na voz, que se alimentava de vazios. Há conversas que ficam a ecoar em nós.

O meu interlocutor de café conta-me que não é daqui, que a sua casa fica longe, no norte. Veio visitar o filho, a nora e os netos. Fala-me da aldeia onde vive, das arvorezinhas que plantou este ano e do amigo que lhe ficou a cuidar dos animais. Acompanha as palavras com as mãos, nodosas, de dedos esguios. Espera viver ainda muitos anos para provar os frutos das suas arvorezinhas, é assim que ele as designa. Sabe, acrescenta, o meu pai dizia sempre, filho, olha que o princípio está no fruto. O princípio está no fruto. Que frase maravilhosa! Esta é daquelas frases para se levar aos lábios, para se repetir de hora a hora, deixando os possíveis sentidos derreterem-se lentamente na boca. Era o que eu estava a precisar de ouvir hoje. O seu jornal continua esquecido sobre a mesa. E o meu livro fechado. Para quê espreitar o mundo na distância segura do papel quando se pode mergulhar na vida que está tão perto? É certo que não é perfeita. Está repleta de dissonâncias e de mal-entendidos. Mas também é verdade que ela, a que vivemos, é a única que podemos efetivamente rasurar, corrigir, melhorar. A vida não tem transcendência nenhuma. A vontade de transcendência apenas pode existir em nós. O meu companheiro de mesa fixa-me o rosto, como se me quisesse transmitir que vê qualquer coisa para além de mim. E eu tenho a certeza de que vê. Talvez recorde a delicadeza de uma mão sobre a sua, a luz branca de uma manhã de primavera, o cheiro de uma mulher que amou. Também eu caio para dentro de mim. Para as coisas que se movem subtilmente, e que me trazem à memória os moinhos de cana que o meu avô fazia para mim, a voz da minha avó a chamar pelo meu nome, o silêncio ardente das longas tardes de verão. Esta é a magia de certas conversas. Levam-nos de volta aos lugares recônditos que guardamos dentro de nós, por entre folhas verdes e bagas vermelhas. Sabe, diz-me ele no fim, o mais importante na vida é a alegria que damos uns aos outros. Às vezes, é um estranho que nos indica o caminho para casa.