quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Fala com estranhos



O senhor não terá menos de setenta anos, mas parece mais novo. Senta-se na mesa ao lado da minha e dá-me os bons-dias com uma voz surpreendentemente jovial. Também o olhar, que pousa com bonomia no meu, parece intocado pelo passar do tempo. Tem um brilho que apaga a sombra da manhã que ainda desponta. Simpatizo imediatamente com ele e nem me importo de adiar a leitura do livro que trouxe comigo para o café. Também ele deixa o jornal dobrado sobre a mesa. Gosto de falar com estranhos. É certo que as conversas são como os melões. É preciso encetá-las primeiro para saber se são boas. Não basta olhar para a pessoa, tentar adivinhar-lhe os pensamentos e as intenções, sondar-lhe as disposições do momento. Na maioria das vezes, enganamo-nos. Somos demasiado apressados a completar círculos e estabelecemos com frequência ligações falsas. A verdade é que a potencialidade de uma conversa é algo que fica para além da fronteira do que é cognoscível. E ao ignorar a oportunidade de uma conversa assim espontânea, podemos estar a recusar ouvir o que precisamos de ouvir, ou de dizer, naquele dia. Conversar com um estranho pode ser uma coisa bonita de se viver, porque não tem história. É uma espécie de soleira onde duas vidas se encontram para conversar, antes de voltarem a entrar nas respetivas casas. É um estar por estar, uma confiança sem porquê. Uma vez, houve uma senhora numa gabardina cinzenta, demasiado grande para a sua constituição, que me abordou numa rua da Alemanha. Andava a oferecer livros. Sorria para os transeuntes apressados e dava um livro aos que lhe retribuíam o sorriso. Estava de partida para o seu país, a Roménia, e não podia levá-los todos consigo. Mas estava certa de que ficariam em boas mãos, porque, disse-me ela, quem sabe valorizar o sorriso de um estranho, saberá também estimar o livro que lhe foi oferecido por este. A mim ofereceu-me Der Besuch der alten Dame de Friedrich Dürrenmatt e eu nunca me esqueci da sua generosidade. Sim, porque estas conversas não são só lugares de encontros e partidas. São também lugares de regresso.
Há conversas leves como a alegria, tristes como declives delicados, e consoladoras como o interior de uma igreja em pleno verão. Há conversas que abrem memórias e que reavivam o estrondo de uma paixão. Há outras que nos deixam os lábios em ferida por não sabermos o que dizer, como a daquela mãe que se sentou ao meu lado no metro e que, entre três estações, com a mão pousada na manga do meu casaco, me confessou que a única coisa que a prendia à vida era o filho que sofria de uma doença mental crónica, e que ela visitava todas as tardes. Lembro-me também daquele homem que, à porta de um bar, sob a luz cor de laranja de um candeeiro, se aproximou de mim e me disse, de olhos molhados, vou esquecê-la, vou esquecê-la, esquecê-la, esquecê-la… sabes, se repetir estas palavras durante toda a noite, talvez amanhã comece a acreditar nelas. E houve também a mulher gorda que começou a falar comigo na fila dos correios e que me disse, com um murmúrio de chuva na voz, que se alimentava de vazios. Há conversas que ficam a ecoar em nós.

O meu interlocutor de café conta-me que não é daqui, que a sua casa fica longe, no norte. Veio visitar o filho, a nora e os netos. Fala-me da aldeia onde vive, das arvorezinhas que plantou este ano e do amigo que lhe ficou a cuidar dos animais. Acompanha as palavras com as mãos, nodosas, de dedos esguios. Espera viver ainda muitos anos para provar os frutos das suas arvorezinhas, é assim que ele as designa. Sabe, acrescenta, o meu pai dizia sempre, filho, olha que o princípio está no fruto. O princípio está no fruto. Que frase maravilhosa! Esta é daquelas frases para se levar aos lábios, para se repetir de hora a hora, deixando os possíveis sentidos derreterem-se lentamente na boca. Era o que eu estava a precisar de ouvir hoje. O seu jornal continua esquecido sobre a mesa. E o meu livro fechado. Para quê espreitar o mundo na distância segura do papel quando se pode mergulhar na vida que está tão perto? É certo que não é perfeita. Está repleta de dissonâncias e de mal-entendidos. Mas também é verdade que ela, a que vivemos, é a única que podemos efetivamente rasurar, corrigir, melhorar. A vida não tem transcendência nenhuma. A vontade de transcendência apenas pode existir em nós. O meu companheiro de mesa fixa-me o rosto, como se me quisesse transmitir que vê qualquer coisa para além de mim. E eu tenho a certeza de que vê. Talvez recorde a delicadeza de uma mão sobre a sua, a luz branca de uma manhã de primavera, o cheiro de uma mulher que amou. Também eu caio para dentro de mim. Para as coisas que se movem subtilmente, e que me trazem à memória os moinhos de cana que o meu avô fazia para mim, a voz da minha avó a chamar pelo meu nome, o silêncio ardente das longas tardes de verão. Esta é a magia de certas conversas. Levam-nos de volta aos lugares recônditos que guardamos dentro de nós, por entre folhas verdes e bagas vermelhas. Sabe, diz-me ele no fim, o mais importante na vida é a alegria que damos uns aos outros. Às vezes, é um estranho que nos indica o caminho para casa.