terça-feira, 1 de agosto de 2017

O efeito de espelho e o óleo de fígado de bacalhau



- Foi a senhora que tirou as minhas coisas?! - pergunta-me a mulher de fato de banho, no balneário, sem amenizar o tom e sem disfarçar a afirmação que se esconde debaixo da pergunta. Surpreendida com aquela inesperada acusação, e não escondendo o meu desagrado por tão inconveniente interpelação, respondo que não, que não mexi nas coisas dela, que nem sequer faço ideia do que sejam. Na verdade, o que me apetecia realmente era recomendar-lhe que engolisse uma colher de mel todas as noites ao deitar para que a desconfiança não lhe comece a amargar a boca logo pela manhã. Mas mantenho a calma e não o faço e, assim, engulo o meu próprio veneno, que tem um sabor semelhante ao do óleo de fígado de bacalhau. A mulher parece não dar crédito à minha resposta e perscruta-me de um modo penetrante, à espera de um sinal ou uma tremura involuntários que denunciem a minha culpa. Vejo-lhe a expressão acusadora, as rugas vincadas na testa, os cantos da boca pendentes, como duas vírgulas descrentes, e uns olhos que duvidam de mim e que me sujam a pele. Desconheço os intentos daquela mulher, não sei em que é que se fundamenta, ignoro a razão por que me escolheu a mim. Franzo o sobrolho e dardejo-a com o olhar. Começo a sentir a impaciência a crescer dentro de mim. Quando me preparo para reafirmar a minha inocência, surge uma outra mulher com um molho de roupas na mão, perguntando de quem são. Então, a mulher do fato de banho, como se nada se tivesse passado, como se não tivesse acabado de pôr em causa a integridade de uma pessoa que não conhece de lado nenhum, vira-me as costas, desfazendo-se em amabilidades com a outra, que lhe deposita o braçado de roupas nas mãos. Depois, sem uma palavra, sem um pedido de desculpas, passa por mim, altiva e soberba. Por instantes, sinto-me impelida por uma necessidade premente de lhe dizer o que penso acerca de toda aquela insolência e falta de educação, mas decido não lhe dar mais importância. Conto até três, ou seja, por outras palavras, ingiro a segunda colher de óleo de fígado de bacalhau da manhã, que, apesar de intragável no momento, me garantirá um resto de dia tranquilo. Afinal de contas, para quê investir as minhas preciosas energias em pessoas que estão sempre a esbarrar no próprio reflexo?