20/09/2017

Eu e a outra



Quem escreve não sou eu. É outra que aparece e eu nunca sei o que é que ela vai escrever. Se soubesse, talvez não a deixasse escrever. As suas palavras inquietam-me, levantam os véus que ocultam a ordem oculta da minha alma e arrastam-me para regiões perigosas aonde eu, por vezes, tenho medo de ir. Ela diz-me que escrever tem qualquer coisa de noite, de montanha escarpada, de mar insondável, de sobressalto. É como rasgar as nuvens com um grito profundo, como olhar a fina capa do céu estrelado através da janela e, de tanto desejar mais vida, ter vontade de dar um murro no vidro. Diz-me que não conta histórias para passar o tempo, que talvez as conte para me transformar, mas não tem a certeza. Não sei precisar quando é que começou esta suposta intimidade entre nós, e não me lembro de alguma vez ter manifestado o desejo de querer ser outra pessoa. Mas ela parece incapaz de compreender as minhas reservas. Na verdade, não sei se a conheço assim tão bem, apesar de ela me jurar que sempre partilhámos o mesmo espaço, que somos tecidas pelos fios de lã de uma mesma história. E relembra-me várias vezes quão essencial é estarmos constantemente conscientes uma da outra, condição impreterível para se ser fiel àquilo que pede para ser arrancado do silêncio. Quanto a mim, insisto na importância da distância adequada entre as pessoas. Quando está demasiado perto, sufoca-me, soterra-me, intimida-me. Há demais de mim em tudo o que ela escreve. Porém, quando está demasiado longe, faz-me sentir abandonada. Por vezes, torno-me complacente e sento-me ao seu lado, ficando a observá-la a escrever. Vejo-a a ziguezaguear sílabas, a convocar palavras, a costurar sentidos clandestinos, porque, segundo ela, o importante é o sentido que se põe dentro das coisas, não o que se retira delas. E o sentido certo para cada momento, assegura-me, é tão importante como uma cantata de Bach, um copo de água ou a bondade. O que ela procura não são respostas, pois a vida não precisa de explicações para o que ela mesma criou.
A maneira como escuta e escreve o que deixo em silêncio faz-me duvidar da autenticidade da minha própria existência. Já me perguntei várias vezes se não será ela que me inventa, e se não serei eu que me deito nas páginas brancas do seu caderno. Qual de nós estará do lado certo do espelho? Será que não passo de uma máscara mal posta? Ou, por outro lado, será que é ela a minha liberdade? Aquela que confere verdade às fibras do meu corpo? Às vezes, encho-me de coragem e, na casa muda e silenciosa, confronto-a com as minhas questões. Para que serve tudo o que escreves? Com um sorriso leve, subtil, que não passa quase de uma intenção, ela responde-me. Isto não serve para absolutamente nada. Eu insisto. Então, porque escreves? E ela, Escrevo porque tu não te podes ver a ti própria face a face.