29/09/2017

Há que muito sonhar



São sete horas da tarde quando entro num café. Para além de mim, do empregado e de uma mulher que folheia uma revista sentada a uma mesa, não há mais ninguém. O rádio está sintonizado numa estação de música nostálgica. Num cartão A4 amarelo, colocado sobre a arca dos gelados, alguém escreveu em letras grandes: O sonho é uma cópia mais verdadeira da vida. Peço uma água mineral e, pouco depois, um homem alto de fato escuro e gravata azul, andar decidido, como se tivesse um encontro importante, entra no café e dirige-se para o balcão onde pede um café curto. A mulher vira a cabeça, olha furtivamente para o homem e esboça um sorriso. Ele responde fixando-a com o olhar, mas não sorri. Entre eles nasce um mistério. Àquela hora, o sol poente entra pela janela, escorre pelas paredes e detém-se no rosto da mulher. É uma luz ofuscante, que a faz fechar os olhos e abrir a porta da imaginação, essa maravilhosa liberdade que dança no espírito. O homem cerra também os olhos, enquanto mexe o café. Vendo-os de olhos fechados, pergunto-me se não estarão a encontrar-se no mesmo sonho. A par das estradas, pontes e vias férreas espalhadas pelo mundo, existem também, como se sabe, as vias de navegação interior: passadeiras que unem os sonhos das pessoas. Levado pela espessa corrente da atração, o homem passa pela minha mesa, sapatos engraxados, um rasto de perfume, e encaminha-se para a mesa da mulher. Ela convida-o a sentar-se, e ele ancora o seu sonho à margem dela. Conversam entre si em sussurros, tão baixinho que, da mesa onde me encontro, não ouço o que dizem. Mas vejo o corpo dela a amolecer na cadeira e os olhos dele a incendiar-se. Pergunto-me, em que pessoa se tornam, quando começam a sonhar? Que outra vida é essa que se atravessa na sua vida? Talvez o homem tenha entrado naquele café, porque a viu entrar, envolvido por um olhar, um gesto, por um qualquer pormenor que só ele e mais ninguém viu. Quanto a ela, pela forma abstrata como virava as folhas da revista, parecia não esperar ninguém. É certo que nunca sabemos o que se passa na cabeça das pessoas, nem mesmo na mente daquelas cuja história inventamos, mas é provável que a mulher tenha trazido consigo um desejo de amar sem razão, sem porquê, sem como. A expectativa de encontrar algo para desejar. Ou alguém para pertencer. Há cenários que contêm tantas histórias semi-escondidas quanto o número de dedos que temos nas mãos. Na verdade, sei muito pouco, pois também eu acabei de conhecê-la. Tudo o que fiz, sem qualquer tipo de escrúpulos, e aqui me penitencio, foi interromper-lhe a leitura e arrancá-la da sua vida, fazendo-a refém de uma história, ou de um sonho que trago na memória, não sei ao certo. Usei palavras reais para escrever sobre coisas invisíveis, coisas tão imateriais que só uma palavra tão estranha como amor poderá definir. De quantos sonhos é feita uma mulher? De quantos homens é feito um homem? Talvez seja na radiação luminosa do amor, quando o mundo é subitamente povoado por um só homem, ou por uma única mulher, que a multiplicidade do ser descobre a sua órbita, como se, finalmente, conseguisse ver a outra face do sol que, até à data, ainda não se tinha apercebido que faltava. Mas todas as histórias têm uma porta de saída. E eu devolvo a mulher e o homem à sua realidade, esse véu ordenador que tudo encobre. A verdade da vida dura uns momentos no tempo que dura um sonho. Preparo-me para os libertar. Confesso que me afeiçoei a eles, que vivi o seu sonho como se fosse meu, por isso, não escondo que gostaria que saíssem daqui de mãos e olhos dados. Gostaria que, no lado de fora desta página, o desejo não se distinguisse da realidade, e que o homem enlaçasse a mulher pela cintura, a apertasse contra si, e que ela se deixasse afundar docemente no corpo dele, enquanto a noite cai lentamente sobre os telhados da cidade e um vento fresco faz rolar as folhas de outono pela rua. Mas a verdade é que, assim que transpuserem a porta que, entretanto, já abri, nada mais poderei fazer por eles. Agora são eles que terão de sonhar sozinhos.