25/09/2017

Hazan



Ele prometeu-me o paraíso, e eu acreditei. Antes era filha do meu pai, agora sou esposa de um homem. Quando casa, a vida de uma mulher é entregue nas mãos do marido. E todos esperam que ela cumpra o seu destino. Há sempre olhos e bocas a dizerem qual é o seu dever. E o pior é que, mesmo quando as vozes se calam, continuamos a ouvi-las dentro de nós. Eu, todas as noites, tenho de lhe dar que fazer. Todas as noites. E se não me apetece, há sempre um joelho que me obriga a abrir as pernas, ou uma bofetada na cara, suficientemente convicta para me obrigar a fazer o que ele quer. Aprendi a transformar o meu coração em pedra. Sinto apenas uma boca a cheirar a azedo, a esmagar a minha, uma voz encostada ao ouvido, a encher-me de impropérios.
Escondo as lágrimas dos meus pais, porque eles nada podem fazer por mim. A minha vida tem-se resumido a silêncio. Não por medo. Apenas porque é uma camada de pele espessa que impede que se veja o que está por baixo. A minha sogra acredita que se trata de mau-olhado. Para o afastar, acende um ramo de loureiro e passa-mo sete vezes pelo rosto. Mas o meu marido tenta fazer com que tudo seja culpa minha. A culpa é minha, a culpa é minha - é um verso que o mundo ensina as mulheres a recitar. E uma mulher deve estar a limpar a casa, a transformá-la num lar, a preparar o jantar, a perfumar-se e a costurar uma camisa de noite para usar na cama. Tentam fazer-te uma lavagem ao cérebro. Roubam-te a inteligência, gastam-te o corpo, espezinham-te a vida. Mas eu tenho o vento a soprar dentro de mim e um saco de dor a inchar-me na garganta. A natureza exprime-se com precisão. Uma mulher assenta em terra viva, a transbordar de água e de fogo. Ele deixará de existir no dia em que me for embora. Morrerá no dia em que eu deixar de pensar nele. Todos os dias perde a paciência e grita-me palavras ofensivas. Humilha-me. Invade-me. Se me arranjo, insinua que me arranjo para outro qualquer. Não quer que eu saia, que fale ao telefone. Liga de hora a hora para ter a certeza que não saio de casa. Eu atendo o telefone, mas ninguém responde. Ouço a respiração dele do outro lado da linha. Aquilo que certos homens fazem às mulheres, nenhum animal faz a outro animal. Mas ele não vai conseguir destruir-me. Porque eu recordo ainda o céu da infância, os ramos das romãzeiras a estremecer e os braços da minha mãe quando aspiro o aroma das especiarias, do cominho, do gengibre e da canela. Já não rezo. Mas leio. A poesia dá-me palavras calmantes. Dá-me a força pela determinação do espírito. Dá-me a beleza inquieta e sublime da vida. Apetece-me muitas vezes chorar, mas já não choro. Uma mulher que acredita que vai mudar a sua vida não chora. Resiste e, um dia, vai-se embora. Salva a própria pele, ainda que ninguém lhe tenha ensinado a fazê-lo. Vai à procura de outra memória. Tens de te servir do que tens. Da dor do teu coração. Mesmo que este, com o tempo, se tenha transformado em pedra. Mas a pedra também se parte. Quem sabe, talvez eu, um dia, volte a encontrar alguém. Alguém que tenha perdido a infância e com quem eu possa partilhar a minha.

[Estas palavras podiam ter sido ditas por Hazan. Mas não foi ela que as disse. Fui eu que as li nos seus lábios pálidos, como rosas pisadas. Li a efervescência da raiva no seu olhar amarrotado, quando arregaçava as mangas e me mostrava as nódoas negras nos braços. Talvez o tenha feito por eu ser uma estranha, alguém a quem é mais fácil revelar estas coisas. Dias depois, confecionou bolinhos de mel onde misturou a erva do sono e deu-os a comer ao marido. Debaixo da cama, tinha já uma mala preparada. Foi assim que, enquanto o marido caía num sono profundo, Hazan fugiu para uma casa-refúgio. Por motivos fáceis de entender, a morada não é do conhecimento público e ninguém está autorizado a visitar as residentes. Por isso, nada mais soube dela. Mas quero acreditar que seguiu o seu caminho. Em todo o mundo há demasiadas mulheres condicionadas, mas nem todas estão condenadas.]