26/09/2017

Salvar o mundo



Não és tu que vives no mundo, é o mundo que vive em ti, no côncavo do teu corpo. E, por isso, todos os dias o mundo é salvo por ti. É salvo, porque conservas a capacidade de te maravilhar com as coisas. Porque és próxima de quem te aproximas. Porque não tens medo do desconhecido. Porque vives o longe e o perto, o choro e o riso, a lembrança e o esquecimento com a mesma intensidade de quando eras criança. Porque acreditas que, de cada pessoa, partem linhas melódicas que a ligam a todas as outras. Porque tentas colocar-te no lugar do outro. Porque não julgas. Porque sabes que os teus olhos não conseguem ver o silêncio de outras vidas. Porque nenhuma vida tem sequência, nada é projetado em linha reta. E as ruas circulares também não têm fim. Tu própria não sabes no que te vais tornar. Porque são os ventos contrários que te põem nos eixos. Salvas o mundo, porque aceitas que não podes possuir ninguém. Porque reconheces que tudo é a sombra de um bando de nuvens a passar, devagar, na tua janela. Um pomar em flor, o rabo da lagartixa que volta a crescer, o eco de uma música andaluza antiga, o rio que, à noite, fica da cor da lua. Ou um risco branco traçado no céu por uma mão perfeita, uma igreja românica nos Pirenéus, um instante de luz em que a tua chama arde com o máximo fulgor. Salvas o mundo, porque reconheces a rara beleza de tudo isto, mas ainda assim, sabes que há mais luz nos olhos dos que amas do que nas catedrais. Salvas o mundo, porque consegues ver a flor desenhada no interior do fruto. É este o mundo que consegues salvar, aquele que te pertence mais do que qualquer outro, aquele que é a expressão singular da tua alma. Cuida muito bem dele. Vive a tua verdade. Porque só isso é suficiente para fazer sair de ti o que tens de melhor. Não sejas feliz antes do tempo. Porque o mundo que está em ti precisa de ser salvo todos os dias.

[Para a minha filha]