13/10/2017

A bombista



Lurdes tinha cabelo ruivo, encaracolado, olhos carentes e um pensamento de dor no olhar. Passava muitas tardes em minha casa. Trazia sempre caramelos, daqueles que se colam ao céu-da-boca, e um batom. Gostava de conversar e de pintar os lábios de vermelho-cereja em frente ao espelho. Tinha-se perdido de amores por um dos rapazes mais bonitos da rua, que tinha um rosto de anjo, mas um coração de pedra, e que lhe chamava gorda, quando passava por ela na rua dando pontapés a uma bola. Às vezes, aparecia em minha casa a chorar, suada, com os caracóis colados ao rosto. A sua vida familiar era uma cordilheira de tristezas. O pai era violento e visceral e gostava de mulheres caladas. Tinha o rosto muito vermelho e o septo nasal desviado. A mãe, que tinha sonhos e tomava comprimidos, deixara-o, estava ele a descascar cenouras para a sopa, encostado ao lava-louça. Dissera-lhe numa voz fraca, vou-me embora. Ele virou a cabeça depressa, como uma ave de rapina, e fixou-a com o olhar. Ela, que tinha as pestanas gastas e nunca olhava para ninguém, porque fitava sempre o chão, um botão, um azulejo, parecia perdida na contemplação daqueles dedos de unhas alaranjadas que seguravam uma faca. Não viu, por isso, o que Lurdes vislumbrou nos olhos do pai. Um incêndio a propagar-se. Mas foi a sua presença na cozinha, sentada à mesa a fazer os trabalhos de casa, que evitou o pior. O pai puxou uma cadeira, sentou-se nela e lambeu primeiro um rol de obscenidades, antes de cuspi-lo para a mulher. Ordenou depois à filha que se despedisse da mãe porque, naquela casa, esta não voltaria a entrar. Estava uma luz lindíssima, era um dia de inverno, mas parecia um dia de primavera, e Lurdes só voltaria a ver a mãe muitos anos depois, por ocasião do seu casamento.

Lurdes conheceu o homem com quem viria a casar quando passava férias na aldeia do pai. Era magro e pálido, como um lençol, e tinha mãos grandes. Encontravam-se furtivamente nas traseiras do palco, que fora montado para a atuação dos grupos musicais que animavam as festas de verão. Beijaram-se logo na primeira noite e, na terceira, ela deixou que ele lhe abrisse a blusa e a acariciasse. Assustou-se quando sentiu o corpo dele a contrair-se e a soltar uma espécie de uivo. Quando compreendeu que tempestade fora aquela, sentiu um pouco de compaixão por ele, e foi esse sentimento que a levou a aceitar casar-se ao fim de alguns meses. Durante o período de namoro, ele ia revelando um ou outro gesto mais áspero que a deveria ter deixado de sobreaviso. Casar era uma decisão precipitada, mas Lurdes não quis refletir sobre o que iria fazer ou como seria errado fazê-lo. Talvez compreendesse que estava perdida, e, ao concluí-lo, soubesse que já estava perdida há muito tempo. Ou talvez não conhecesse outro modelo, e ele se parecesse muito com o próprio pai. 

Só mais tarde, quando era tarde de mais, é que ela descobriu que as mãos dele eram enormes. Imensas borboletas negras. Poupo-vos uma prosa de violência, vazios e desesperos, mas também de alegrias e regozijos, como quando lhe nasceram os dois filhos e se tornou mais próxima da mãe. A vizinha com quem desabafava o inferno que era a sua vida de casada, aconselhava-a a pensar em coisas bonitas. Pense em flores, pense na sua infância, dizia. Mas Lurdes já estava perdida há mais tempo do que a vizinha imaginava. Um dia, decidiu começar a escrever. Queria que fosse um romance. Mas no que escrevia não havia personagens, não havia enredo. Era tudo um longo monólogo em que não se ouvia outra coisa além de uma voz. A sua. Quando ele estava em casa, mal conseguia respirar, ficava em silêncio, porque já não aguentava vê-lo a abanar a cabeça como se ela fosse um caso perdido. Apagava-se, extinguia-se, como aquelas pessoas que se ocultam atrás das árvores. Por isso, ouvir a própria voz, mesmo que sussurrada para um papel, fê-la sentir-se independente, pertinaz, dona de uma consciência própria. Escrever era estabelecer uma descontinuidade com a vida que tinha, era torná-la suportável. Mas a voz tornou-se rebelde, queria ser ouvida por outros. E ela lembrou-se que podia mandar fazer cópias das páginas onde tatuava a voz a tinta preta. Assim, todas as noites, sob o pretexto de ir deitar o lixo, levava, dobradas no bolso do casaco, cópias da página que escrevera nesse dia, e que introduzia anonimamente nas caixas de correio da vizinhança. A princípio, muito a medo. Os dedos tremiam-lhe. Sentia uma palpitação louca nas têmporas. Mas com o tempo, o andar tornou-se mais leve e as mãos mais firmes. Mais tarde, já deitada na cama, pensava no efeito que as suas palavras teriam nos vizinhos. Haveria quem sentisse empatia? Haveria quem se identificasse? Quantos o interpretariam como uma impertinência, mais inconveniente do que um folheto publicitário? Sentia-se uma espécie de bombista, que andava a lançar pequenas bombas em caixas de correio, a largar as granadas que lhe rodeavam os pulsos. Mas a verdade é que se não houvesse quem a lesse, o que escrevia era apenas uma bomba em potência, que ainda não rebentara. Lurdes estava certa. Ao fim de alguns meses, a bomba acabou por estalar. E porque o feitiço é sempre maior do que o feiticeiro, a bomba rebentou nas próprias mãos. Cansada de estar presa na própria imobilidade, tomou uma decisão. Uma sede de verdade deu-lhe força para sair de casa com os filhos, determinada em manter a coluna direita e garantir, assim, um exemplo de dignidade. Levara tempo a perceber que era de si que precisava irremediavelmente. Para tal, servira-se do único recurso que possuía. A dor que tinha no coração, que é uma verdade que se aprende a custo. E escrevera-a. Tornara-se ficção de si mesma para poder recriar-se. Tudo isto me contou ela, com a luz de fogo dos cabelos a emoldurar-lhe o sorriso. Está mais bonita. Alterou o formato das sobrancelhas, pintou uma boca nova e comprou pulseiras. E os filhos adoram ouvir a música aquática das pulseiras da mãe.