09/10/2017

A ferida perfeita



Ainda que fosse cedo, ainda que não fosse noite, entrei no carro e disse-te que os teus braços eram pequenos para todo o amor que te tinha. Então tu disseste-me que eu tinha a sensibilidade ambígua das flores. Que o que eu desejava intensamente não era amor, mas imortalidade. Porque compreendi o significado que esvoaçava dentro das tuas palavras - sabes, contigo tornei-me apanhadora de borboletas - soltei uma gargalhada, que era apenas a tristeza a dançar na minha voz. Recostei-me no banco, e um silêncio misturado com terra veio sentar-se ao meu lado. Liguei o rádio e a música subiu, entrou-me na pele, mas não chegou ao coração. Lembrei-me então dos sonhos que se perdem no fundo do corpo, da luz de uma vela antiga, do minúsculo sinal carmim, como uma pétala tombada, que me cresceu na coxa. Nem sei porque me lembrei daquelas coisas. Talvez porque estivesse longe de casa. Ou porque já não conhecia mais atalhos para chegar a ti. Mas, sabes, o que eu queria mesmo era nada querer e nada pedir. E deixar de escrever de uma vez por todas sobre as coisas vivas que não soube viver. 

[Não sei se reparaste, mas no céu plantado por cima do para-brisas passou um pontilhado ondulante de pássaros que parecia um sorriso de compaixão.]