07/10/2017

Deep Blue



Emília acordou a tremer de frio. Voltara a ter o mesmo sonho estranho. Estava no fundo do oceano, envolvida por uma massa de água, fria e densa. Confusa, ainda estremunhada, bate as pernas como se quisesse ter a certeza de que saiu do sonho, que deixou as profundezas e voltou à superfície. Afasta os lençóis e senta-se na cama, ainda de olhos fechados, fazendo deslizar os pés à procura das pantufas. É ainda muito cedo, mas não quer ficar na cama. Não quer agarrar os restos do sonho. Veste o roupão de flanela azul-pálido e encaminha-se para fora do quarto. Enquanto tateia as paredes do corredor perdido no escuro, distingue a descarga de um autoclismo, uma persiana a abrir, uma porta que range. Os vizinhos são madrugadores como ela. Na cozinha, põe uma cafeteira de café ao lume e aproxima-se da janela. Um pombo desce sobre o telhado do prédio em frente e, com ele, a manhã. Pensa no que irá comer. Talvez uma torrada. Tem ainda no frigorífico uma fatia de pão do dia anterior. Agora já não se preocupa tanto. Come o que lhe dá jeito. Ouviu há dias na televisão que as pessoas que ficam sozinhas deixam de fazer comida. Ela própria se esquece de comer. Antes preparava pratos suculentos. Mas agora falta-lhe o apetite e o olfato também já lhe prega partidas. Às vezes, assusta-se por não sentir os pés. Ou as mãos. Ou por estar sozinha. Sente o corpo angustiado a fugir-lhe, a perder-se, a afundar-se. As correntes do mar do norte movem-se no sentido dos ponteiros do relógio, ouviu há dias dizer, e todos os dias imagina o corpo a ser arrastado por uma. O som borbulhante do café a ferver desperta-a dos pensamentos. Retira a cafeteira do lume e fica a ver o café a escapar-se pelas juntas já frouxas, numa espuma sibilante. A cafeteira precisa de ser substituída, como, aliás, tudo o resto na casa. Quando foi para ali morar, há muitos, muitos anos, tudo era reluzente e moderno. Fora, sem sombra de dúvida, a casa certa para estrear uma vida nova. Mas tudo mudou de um dia para o outro. A morte vai sempre direita ao assunto, não perde tempo com rodeios. E a casa é agora tão silenciosa e vazia, como a sua própria vida. Todos os lugares onde já se foi feliz podem ser divididos em pares de contrários: antes-depois, claro-escuro, leve-pesado, feliz-infeliz. Talvez porque só se tem consciência do que se foi quando já não se é. Por isso, é no seu próprio quietismo que a casa expressa a presença das coisas perdidas. Nela, tudo fala, e cada objeto confirma uma ausência. A poltrona que adquiriu os contornos de um corpo que já não vive, a cama desoladamente grande, o copo da casa de banho que denuncia a falta de uma segunda escova de dentes, a memória de passos que já não deixam rasto, a bola de vidro azul-marinho da secretária que repousa sobre as cartas que continuam a chegar, endereçadas a ele. O silêncio enovela-se entre os copos e as chávenas, os livros, os quadros, o violoncelo arrumado a um canto, que reclama o seu proprietário. O desgosto tem o mesmo andamento de uma fuga de Bach. Um único pensamento é repetido inúmeras vezes. Será a morte o contrário de vida? Mas como, se não se deixa de existir quando se morre? 

Emília regressa ao quarto e olha-se ao espelho. Inspeciona demoradamente o rosto manchado e enrugado, os olhos aquosos, a boca que perdeu o prumo, os ombros melancólicos, as costas vergadas pelo peso irremovível da dor. Tudo nela é forma desfeita. De repente, lembra-se de que precisa de ir comprar pão. Veste o mesmo vestido que usou nos dias anteriores e sai para a rua. Na paragem do autocarro, põe-se na fila, desaparecida dentro de si mesma. Quando o autocarro chega, chiando e vomitando fumo, precipita-se para ele como as outras pessoas, mas a coincidência de corpos, o zumbido de vozes fá-la sucumbir à mais profunda tristeza. Um gosto salgado a lágrimas reprimidas invade-lhe a boca. Pela janela, olha ressentidamente para as pessoas que caminham na rua, apressadas. Todas parecem ter alguém à sua espera, alguém que lhes aponta uma direção, que lhes corrobora a existência. Só ela não sabe o que fazer com todas as horas mortas do dia. Já não tem ninguém para esperar, ou alguém que a espere. Ainda assim, pergunta-se, o que será pior? Não ter encontrado ninguém por quem esperar? Ou ter sido privado da pessoa por quem se esperava? 

No supermercado, Emília avança devagar, os olhos postos num horizonte sem imagens, concentrada no traçado retilíneo que a levará à secção do pão. Uma voz amável, tão anacrónica, que quase duvida que tenha ouvido bem, interpela-a. A dona da voz estende-lhe um saco dobrado que, sem se aperceber, deixara cair. Emília murmura um agradecimento e, quando se prepara para continuar, umas maçãs de coloração avermelhada sobre um fundo verde prendem a sua atenção. Lembra-se de que eram as preferidas dele. Embora já não consiga distinguir com a mesma clareza os aromas que a rodeiam, pega numa maçã e cheira-a. É então que sente uma harmonia súbita, um inexplicável frémito de felicidade. A memória é um puzzle sem esquadria. Nunca está acabada. Há sempre uma meia-palavra, uma frase eloquente, um certo beijo, um reparo, uma nota olfativa que, presos ao fio da memória, indiferentes a olhos angustiados, frescos como se fosse a primeira vez, liquefazem tudo à volta. A impressão possui a brevidade de uma semicolcheia, mas ainda assim, de tão depurada e preciosa, fá-la sentir-se como um animal que respira pela primeira vez. Perdeu o presente, mas há um passado que permanece acessível, como uma boia que a salva da submersão na dor, do círculo que se estreita como um funil. A reconciliação é uma arte exigente. É difícil aceitar que há tantos azuis para o mesmo mar. Mas a vida que não perdeu, que vive ainda dentro dela e que perfaz mais de metade da sua idade, aquela que encerra o melhor que ela e ele haviam sido, pede para ser justificada. Esta reflexão dá-lhe a lucidez das coisas práticas e fá-la olhar para o relógio de pulso. Pela primeira vez em meses, Emília apercebe-se que os ponteiros do relógio se encontraram para o almoço.