08/10/2017

Era uma voz



A minha avó era uma contadora de histórias nata. Em tom de brincadeira, costumava dizer que na cabeça lhe nasciam mais histórias do que cabelos. E, acreditem, a minha avó era dona de uma farta cabeleira. Nas noites quentes de verão, quando a lua dava sombra às suas histórias, ficávamos no jardim até tarde. A noite fazia crescer os campos, as flores e as árvores, e abria a minha imaginação. Numa época em que não havia ainda eletricidade naquela zona, a minha avó gostava de me contar histórias de pirilampos cujos sonhos só a noite – e ela, claro - conhecia. Ouvi-la era parar a contagem do tempo. Havia histórias de todos os tipos. As divertidas, como a do menino que todas as noites fazia chichi na cama até que o corpo se transformou numa nuvem de chuva, ou a da centopeia cleptomaníaca que, no inverno, roubava incansavelmente meias para os seus mil pés. Havia também as de terror - as histórias, por vezes, arrastam-nos para lugares perigosos, mas eu nunca dei parte de fraca - como a do cavaleiro sem cabeça que corria o mundo no seu cavalo negro, sem rumo e sem destino, para esquecer a amada que casara com outro. Havia as trágicas, como a da noiva que morrera no dia do casamento, fatalmente mordida por uma osga que se escondera no vestido durante a noite. Havia as mágicas, como a da macieira que dera nêsperas, ou como a do vento que soprara todos os dias do ano sem descanso, vergando as árvores e as costas das pessoas, que precisaram de um ano inteiro sem vento para ficar novamente com as costas direitas. Hoje sei que a minha avó inventava todas aquelas histórias à medida que as contava. Nas suas palavras, porém, havia sempre sinceridade. Sei que não as procurava, eram as histórias que vinham até ela. E nunca perdeu nenhuma, assim como nunca perdeu a voz, a doçura e os olhos bondosos. E porque eu acreditava em todas elas, as suas histórias levavam-me sempre muito longe. Creio que ela nunca soube a importância que as suas histórias tinham para mim. Talvez quem conta histórias não saiba bem o que está a fazer. Quando terminava, ficávamos as duas caladas, a aspirar o silêncio da história, o tempo suficiente para nos conhecermos uma à outra. Foi assim que fiquei a conhecer a minha avó. Por isso, todas as histórias, sobretudo as que nos contam na infância, não deviam começar por Era uma vez, mas sim, por Era uma voz. A voz de quem nos ama.