terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Até sempre



Pior do que a morte, é a morte em vida que aprisiona a vontade e o desejo no interior do corpo. Nunca a senti em mim, mas sempre a vivi de perto no corpo dos que mais amo. Rostos bonitos, com olhos de veludo amachucado e vozes sem esperança. Crisálidas às avessas, sem asas, caídas no chão, rendidas à força da gravidade.

Quando não há ar para respirar e a angústia me envolve como nevoeiro, fecho os olhos para que o ritmo da respiração abrande. As dúvidas, as incertezas arranham-me o peito, desejosas de se libertarem. Fico em silêncio, virada para um rio que se precipita de uma altura imensa, e foco-me nas coisas boas que tenho. Desde pequena que me habituei a este exercício, deixando a mente levar-me para onde quero. Agarro-me a essas coisas boas como a um rochedo. O silêncio não é a ausência de vozes ou palavras. O silêncio é, muitas vezes, uma forma de resistência e de resiliência. Somos também aquilo que calamos e que não dizemos. E eu tenho pensado em todas estas coisas sem palavras. Tem sido esta a minha forma de preparar o futuro, nas extremidades aguçadas dos meus dias submarinos. Hoje, obriguei as minhas pernas entorpecidas a reagir e voltei a confiar nelas. Bebi um chá quente, temperado com um pau de canela que me limpou a cabeça e o coração. Escrevi estas palavras, e ouvi o tamborilar da chuva na janela do meu quarto. Ou serão as lágrimas que não choro há anos? Vesti o casaco e coloquei um cachecol amarelo, um amarelo frágil, neste dia nublado que tinge a manhã de cinzento, e saí para a rua com a dor apertada contra o peito. Há alturas em que viver é apenas sobreviver. Mas a vida continua e eu ainda não perdi o meu sentido de orientação. Nem o meu sorriso.

[Na escrita, tal como na vida, as pausas são importantes. Não sei se aqui voltarei. Neste momento, não me é possível fazê-lo. Mas quero agradecer-vos a todos pelos pedaços de conversas, por todos os sorrisos, cumplicidades e partilhas. Houve muitas palavras vossas que me envolveram como abraços apertados. Uma vez escrevi que não levava este blogue muito a sério. Hoje sei que estava enganada. Porque todos os blogues têm tesouros escondidos: pessoas. Os blogues não se alimentam só da escrita que lhes dá consistência. Não se bastam a si mesmos. Precisam sempre do olhar e da atenção do outro. Os blogues alimentam-se de pessoas e daquilo que elas fazem acontecer em nós. Por isso, a vossa história é também a minha. Fui também o que me fizeram ser. Escrevi e escrevemo-nos. Nalguns casos, escrevemos com palavras e lemo-nos com o coração. E isso é muito, muito bom. Talvez os blogues não tenham um fim, mas apenas uma finalidade, que se entrelaça e continua em outros blogues. Nos vossos. Espero que sim, porque gostaria muito de continuar a ler-vos. Bem hajam pelo bem que me fizeram!]





segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Lord Don't Move The Mountain


But give me the strength to climb...




  
[para entoar no silêncio do coração]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O amor sem idade



Esta manhã, quando entrava no café, esbarrei em dois olhinhos muito azuis que me fitavam, expectantes. Mas rapidamente se desinteressaram de mim, voltando a colar-se à porta. A dona do bonito par de olhos era uma senhora de respeitável idade, muito aprumada e elegante. Sempre a sorrir, segurava na mão direita uma chávena que levava à boca com parcimónia. O cabelo prateado, uma verdadeira obra arquitetónica, estava impecavelmente penteado, enfunado e vaporizado de laca. O rosto era pálido e delicado, animado por uma boca amável, pintada de vermelho. O café estava apinhado de pessoas e do rumor das suas conversas. Ocupei a única mesa que se encontrava vaga e que ficava de frente para a sua. Não tirava os olhos da porta, apenas interrompendo a vigília para, com a outra mão, compor o lenço floreado que trazia à volta do pescoço ou lançar uma breve olhadela ao relógio de pulso. Os gestos algo inquietos indiciavam que esperava alguém. Certamente alguém muito especial, pensei, sorrindo para dentro. Quando um senhor alto e grisalho se dirigiu a passos largos para a sua mesa, a boca abriu-se-lhe num sorriso ainda maior, como um sol vermelho-vivo a nascer. Ele tinha o bom ar de quem tem gosto pela vida e uma voz de rádio. Como vai, minha querida? Ela olhou-o, enlevada, enquanto uma nuvem de seda escarlate lhe subia pelo rosto. O empregado veio receber o meu pedido e, quando voltei a olhar, já o senhor estava debruçado sobre a mesa, com o rosto quase encostado ao dela. Não sei o que lhe dizia, mas nos olhos dela, agora mais claros que dois relâmpagos, eu lia o desejo de querer ser feliz. Pouco depois, levantaram-se, ele colocando o braço por cima dos ombros dela com uma certa falta de jeito, como se ainda não estivesse habituado a tanta sorte. Cúmplices, leves e esperançados, saíram para a rua, deixando sobre a mesa uma marca de batom vermelho a sorrir numa chávena.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O grito



Entrou na clínica agarrada ao braço da filha. Corcovada pelos anos, o queixo colado ao peito, dava passos pequeninos e bruscos, semelhantes a pequenos solavancos. Por pouco não tropeçava nos próprios pés, já esquecida de acertar o passo com o mundo. Os olhos baixos pareciam fixar a ponta do cachecol, que lhe escorregava do pescoço, e quase tocava o chão. Trazia vestido um casaco demasiado comprido, que lhe dançava no corpo e que, provavelmente, não a resguardava do frio agudo que sentia por dentro. O curto trajeto que fez até ao gabinete, onde seria feita a recolha de sangue, sugou-lhe as forças. Deteve-se junto à porta por breves instantes e entrou na divisão, sempre conduzida pela filha.
Mais tarde, ouviu-se um grito lancinante, quase animalesco. Depois novo grito. Outra vez. Cada vez mais alto. Gritava como se algo maior do que a fina dor provocada pela picada da agulha irrompesse à superfície, vívido e dolorosamente ardente. Na sala de espera, os olhares despegaram-se das páginas das revistas e dos ecrãs dos telemóveis e ergueram-se, tensos, sem linha de horizonte. Por fim, fez-se silêncio. Um silêncio mais profundo do que tudo, intensificado pelos gritos que continuaram a balouçar no ar, latejando-nos nos ouvidos. Às vezes, ouvir é um segredo. E um grito é sempre mais do que um grito.
Quando saiu do gabinete, vinha a tremer, como um pássaro aterrorizado com a tempestade. Perdida em si mesma, assustada com o mundo que há muito deixara de compreender, deixou-se guiar para a saída, nos seus passinhos sacudidos e sem coordenadas. Disfarçando o embaraço com um sorriso, a filha pediu delicadamente desculpas pelo incómodo e agradeceu a compreensão de todos os presentes. De braço dado, tão perto e tão longe uma a outra, à distância intransponível da doença que evapora a vida por dentro, saíram para a rua, desaparecendo no nevoeiro que cobria a manhã com o seu manto espesso e surdo.

[Quando chegou a minha vez e a agulha da seringa me perfurou a pele, apeteceu-me também gritar. Não o fiz. Mas quando cheguei a casa, tive de escrever este texto.]