segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Flor de lótus



De todas as pessoas que conheci ao longo da minha vida não guardo mágoa de ninguém. Não minto se disser que sinto por todas um amor sereno e subjetivo. É claro que o tempo e a minha benevolente memória transformam todos os elos em coisas boas e puras. Mas não guardo mágoas. Se, por acaso, voltasse a encontrar algumas dessas pessoas, creio que lhes daria um abraço espontâneo. E não tenho perfil de mártir, acreditem. O que penso que tenho é um elevado espírito de autopreservação. E talvez seja por isso que, até hoje, perdoei todas as pessoas que não me fizeram bem. Não só porque sei que, na altura, fizeram o melhor que sabiam e que podiam - mesmo quando o seu melhor não era bom para mim -, mas também porque esta é a única forma que conheço de viver de forma apaziguada. Todas as memórias têm muitos arranhões, cortes e entalhes. As minhas têm também muito incenso. Na minha memória, todas as parcelas fazem sentido. Não gosto de pensar que o que me acontece não serve para nada. Tudo o que vivi faz parte da minha existência mais profunda. O bom e o mau. A minha avó dizia-me sempre Nunca deixes que a tua infelicidade te torne infeliz. E eu sempre me agarrei a esta frase, como se fosse o verso de um poema escrito para mim. Há palavras e memórias que não podem ser desperdiçadas. As minhas dão-me uma oportunidade de saber e de descobrir. São um sussurro quente que me enche de confiança. Porque as coisas nem sempre são como pensamos que foram. As memórias podem ser isto. Um aroma profundo e sagrado que paira sobre nós. Feito de pétalas de uma flor de lótus branca.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Do meu lado de dentro



Hoje demorei-me a abrir as janelas. Se não estivesse constipada e o meu olfato funcionasse, diria que a manhã cheira a aves marinhas. Do outro lado da rua, vejo um grupo de rapazes em idade escolar, pavoneando-se ao longo dos vidros das portas dos prédios. Depois, o senhor que varre a rua aparece na esquina, arrastando os pés atrás do seu carrinho, a vassoura posicionada como uma bandeira erguida ao vento. Uma porta bate com estrondo e a rapariga do prédio cor-de-rosa sai de casa, bonita como sempre. Traz um casaco escuro que se lhe molda ao corpo e de onde saem umas pernas longas que me fazem lembrar eucaliptos. Entra no seu carro cinzento claro e arranca, veloz, como a cor das barbatanas de um tubarão. O meu vizinho do primeiro andar sai também para a rua, levando um rosto franzido, umas calças impecavelmente vincadas e histórias indignadas para contar no café. Ouvem-se motores de automóveis, passos apressados na calçada, uma criança chora ao colo do pai. O dia começa a ganhar movimento e eu ainda estou do lado de dentro, de pijama. Ao longe, o mar é uma mancha plúmbea e eu imagino as ondas a desfazerem-se em nuvens brancas, como certos sonhos não verbalizados. Despeço-me dos meus filhos e aperto-os contra o peito, num contacto de pele, sangue e osso. Por instantes, deixamo-nos ondular juntos, como se estivéssemos no mar. Estão cada vez maiores, mas eu sei que eles se fazem mais pequeninos para continuar a encaixar na soleira do meu ombro. Hoje não os consigo cheirar, mas digo-lhes o que todas as mães dizem. A vida é isto. Um caminho que preparamos para nos perdermos de amor. E eu hoje sinto-me leve, como se tivesse um pássaro pousado no braço. Sorrio para o dia e peço-lhe que me traga o que ele quiser.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

No limiar sagrado do ser




Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.


Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


Anna Akhmatova, in Só o Sangue Cheira a Sangue