28/02/2018

A coragem



Sabe, a minha mãe…, interrompe a frase, deixando perceber uma mensagem velada, a incredulidade face ao caráter definitivo da morte. E contudo, ela sabia que o seu coração estava doente, via que se cansava muito, que lhe era penoso subir escadas, passear, que, para o fim, já mal saía de casa, mas nunca imaginou que fosse tão sério. A ausência de queixas, de drama, de autocomplacência fizera com que não se preocupasse o suficiente. Às vezes, quanto melhor conhecemos as pessoas, menos bem as vemos, diz-me, secando os olhos com um lenço. É verdade. Mas há também pessoas verdadeiramente corajosas, que vivem sem assustar os outros. Não usam a doença como pretexto para falar de si próprias. Não se persignam ou ajoelham diante da sua dor. E depois, morrem da mesma forma como viveram. Com a naturalidade de um fio de luz que se escoa através das cortinas.