07/02/2018

Historias de (nos)otros



Depois o meu pai morreu e eu… - interrompe a frase, fazendo deslizar devagar a língua pelo interior da bochecha. Pressinto que o silêncio não brota da sua dificuldade de articulação verbal, mas de uma tristeza que é maior que as palavras que consegue encontrar. Por fim, manobrando a cadeira para debaixo da buganvília, cujas folhas se agitam com o vento, diz-me num sussurro de lábios gretados pelo frio: E eu nem tive tempo de lhe agradecer. Observo-lhe o contorno das mãos deformadas enquanto retira bocados de pão de um saco de plástico transparente e os atira aos pombos. Vejo-lhe as pontas das pantufas castanhas a espreitar por entre as franjas da manta que lhe cobre as pernas. Sei que foi duro para ele retirar a história de onde a enterrara e devolvê-la à vida através de palavras doridas. É difícil aceitar que existem demasiadas coisas que não dissemos, demasiadas palavras caladas, convertidas em feridas a gritar dentro do peito. No início, não doem. Mas os invernos sucedem-se, e elas, como uma avalanche silenciosa, estendem-se pelos membros, fazendo lembrar-nos que somos feitos de carne, de qualquer coisa mortal.
Na pálida luz da tarde, a história espalha-se dentro de mim e uma dor ganha vida, uma dor que sei que vou conservar até conseguir compreender e, talvez, curá-la em mim. Há histórias que não terminam no outro, que não se perdem ao virar da esquina. Sobem-nos para as pernas, moldam-se à volta do corpo, crescem em sítios onde não esperaríamos que crescessem e dizem uma verdade a nosso respeito que ainda não sabíamos. Às vezes, oferecer um ombro a um coração ferido é abraçar a própria fragilidade. É repartir um fardo que nos curva as costas, um peso que não sabemos se da nossa, se da vida que nos é contada, se de ambas. É chorar juntos a perda da inocência - que cem anos de vento não são suficientes para endireitar um salgueiro, que há rios que nunca chegam a ver o mar, que cada beijo não é uma flor e que as montanhas e os deuses não nascem no céu. Abrirmo-nos às histórias dos outros é inscrever um sentido maior na nossa própria história. É descobrir que o que nos une é, afinal, infinitamente maior do que o que nos separa. E isso talvez seja o que nos faz valer mais como pessoas.