06/02/2018

Memento



Não mistures os desejos com o que vês. Ao fim do dia, quando os teus olhos ficam sem cor e a noite se atira aos vidros da janela, orienta-te pelas tuas mãos marfíneas, que brilham como lanternas. Elas saberão colher a verdade que cresce ao pé da porta da tua cozinha. Usa-as para ver o fundo das coisas e dispensa as luvas, mesmo quando o seu sentido te pica as pontas dos dedos. Os espinhos são precisos para perceberes que a verdade é a própria natureza. É o mistério e a sombra. É o barro que moldas com as tuas mãos, enquanto escutas as pedras e o rumorejar das folhas dos carvalhos, como escrevia o filósofo. Deixa que as tuas mãos deslizem como cisnes pela penumbra e percorram as camadas da tua pele vulnerável. Sente o sangue e o osso, o pulsar do fogo frio. Mas não te lamentes. Não te condoas. A vida é uma massa de gelo que te faz escorregar. E isso já tu sabias de vidas anteriores, das que são tuas e das que não são. Lê o que escreveste antes de o rasgar, para não te esqueceres que o coração, às vezes, é uma mancha avermelhada no canto de uma página em branco. Viver é ser ferido por si próprio. Por isso, não culpes ninguém. E assim preservarás sempre uma boa imagem de ti mesma.