25/02/2018

O calígrafo



Quando repicava o sino ao nascer do dia, o sineiro tinha o ar de quem fazia a coisa mais bela da vida. O som profundo do sino aproximava-se das casas. Percorria a aldeia. Entrava na casa de madeira do calígrafo. E alongava-se sobre a linha brumosa do horizonte. Sobre o mundo inteiro.

O calígrafo despertava. Levantava-se. Vestia a túnica. Bebia uma chávena de chá, sentava-se no chão, as pernas cruzadas. Debruçado sobre a mesa, o tinteiro de pedra à frente, o peso de papel na margem esquerda, cobria a folha de papel de arroz de linhas ordenadas. Traços precisos. Um caminho de ideogramas. Meticulosos. Belos. Desenhados a tinta preta. Na luminosidade certa. Trabalhava muito. Possuía a paixão da forma e não tinha mulher. Era assim que compunha o seu destino. Ao pôr-do-sol, quando o sino tornava a soar, pousava o pincel e comia sozinho, debaixo de uma árvore. Olhava o céu manchado de aves, que subiam e desciam, como carateres a fugir para o confim do horizonte. Foi assim que a viu. Ao crepúsculo. De repente. O suave roçagar de um quimono. Uma bainha branca. O cabelo preto. Brilhante. Dois olhos rasgados. Cândidos. A curva de um pescoço a fazer parar o tempo. Um instante, até ao fim. Talvez no mundo inteiro. Pela primeira vez, o calígrafo abandonou-se ao espaço em branco entre as coisas. E assombrou-se com o indizível.

Debaixo da árvore, do céu riscado a negro pelas asas dos pássaros, o calígrafo tentava compreender com que alfabeto se escrevia tudo o que não soubera antes. Compilava significados sem uma única palavra. A ponta de um lenço a ondular no ar, como uma borboleta noturna. Um milimétrico tremor de mão. Uma música branca na impercetibilidade de um sorriso. O mistério aceso de uma sombra. Fixava-a com os olhos, movimento a movimento. Como se decifrasse um manuscrito. Ela não tinha voz. Soube-o mais tarde. Não se importou. Ela era um sopro vivificante. E ele amava-a com a respiração. Um dia, quando as pétalas brancas começaram a cair das árvores, rolando em pequenos novelos com a brisa do fim da tarde, ela não veio mais. Estava prometida. Tratava-se de um acordo entre famílias, selado muito antes de ela ter nascido. Imerso em dor, decidiu nunca mais voltar a falar. Nesse instante, ofereceu-lhe a voz. Para que ela a guardasse onde guardava a sua. Algures, perto da raiz escondida de todas as palavras. Até ao fim. O sino ficou fendido de um dia para o outro, sem que alguém conseguisse saber como. Já não vibrava. Baloiçava na ogiva do templo, soando a madeira. O sineiro deixou de ter o ar de quem fazia a coisa mais bela da vida. E o calígrafo nunca mais pegou no pincel. Envolto no esquecimento dos outros homens, morreu vivendo mais sete invernos. Passava horas a fio a contemplar a figura impressa na casca de um cedro, na transparência das asas de uma libélula, na plumagem branca e negra de um grou. Por fim, pressentindo a partida, esculpiu o próprio túmulo numa pedra redonda. Nela, cinzelou um único ideograma. Silêncio.