14/02/2018

O corpo não sabe



O senhor António volta do fundo da frutaria com duas laranjas na mão. Coloca-as dentro do saco pousado sobre o prato da balança e exclama, Pronto, agora já tem dois quilinhos bem pesadinhos. Sorrimos um para o outro. Ele, satisfeito com a infalibilidade das suas mãos na apreciação de pesos e medidas, eu, encantada com a sua simpatia incansável. Pela vitrina, vejo Dona Renata a aproximar-se lentamente da entrada, apoiada numa bengala, com a dor a marcar a lentidão dos passos. Detém-se no degrau, que sobe com muito esforço, e encosta-se por instantes à porta para retomar o fôlego. O curto trajeto de sua casa à frutaria sugou-lhe as forças e o coração bate-lhe cansado por baixo das várias camadas de roupa de inverno. Ainda assim, dirige-nos um sorriso macio como um alperce, dando-nos os bons-dias, enquanto ajeita o cachecol que lhe escorregou do pescoço com uma mão de veias salientes, muito azuis. O senhor António, solícito, retira a cadeira que se encontra atrás da caixa registadora – e que lhe serve de descanso nos momentos mortos - e posiciona-a num canto sossegado da loja, junto a um tabuleiro com espinafres, nabiças, salsa e coentros. Depois, amparando Dona Renata pelo braço, guia-a até à cadeira, perguntando-lhe com genuíno interesse, Como tem passado, Dona Renata? Já sentada, Dona Renata fita-o com uns olhos verdes, que as grossas lentes dos óculos ampliam, e, com a parcimónia de quem conhece o inexorável e caudaloso sofrimento do corpo humano, faz ressoar uma gargalhada antes de responder, Eu estou bem, senhor António. Eu estou bem. O corpo é que não sabe. Mas a cabeça ensina-lhe.