19/02/2018

O mundo como um talho global



No ginásio, o homem que pedala na bicicleta ao lado da minha acabou de regressar de um país africano e faz questão de me relatar as suas férias. Aparentemente, o meu rosto fechado não é suficientemente convincente para o dissuadir. Fala muito alto, como se eu fosse surda, descrevendo-me a sujidade, o péssimo estado das estradas, o sol escaldante. Em suma, as agruras e os rigores da vida de um turista ocidental. Prossegue depois com o relato - não solicitado - da sua visita a um parque natural para observar os animais selvagens. Enumera elefantes, leões, girafas, zebras, gnus, búfalos e, ah, as gazelas, que tinham um aspeto tão comestível. Comestível? Sim, comestível. O olhar sério com que responde à minha pergunta, sem qualquer subtileza psicológica, confirma-me que se trata de alguém que percorre o planeta em busca de alimento. Alguém para quem a complexidade e a beleza da vida animal têm um mero fim nutritivo. Viaja pelo mundo, mas, na realidade, nunca sai do talho do bairro.